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Um monumento às vitimas

Michael Kegler *


Hoje, Soledad Barret Viedma teria 65 anos. Se ela não tivesse sido assassinada hoje há 36 anos, na chamada »Chacina da Chácara de São Bento«, em 7 de janeiro de 1973, um dia após o seu vigésimo oitavo aniversário.

Ela é uma das inúmeras vítimas da ditadura militar no Brasil, uma das inúmeras militantes que nunca tiveram a chance de, mais tarde, serem anistiados, de se integrarem na vida política de seu país re-democratizado muitos anos mais tarde, ser ministra ou artista, ou quem sabe, uma simples pessoa normal. Vivo até hoje está o seu assassino, que na época fingia ser seu namorado e atendia pelo nome de »Daniel«, o histórico »Cabo Anselmo« ex-rebelde e agente de infiltração do governo militar.

Urariano Mota, que em 1997, com seu romance Os Corações Futuristas,  ergueu um monumento literário a uma geração perdida de desconhecidos resistentes à ditadura militar no Brasil, volta agora a evocar aqueles que não sobreviveram, os assassinados enterrados em valas comuns ou até clandestinamente, de que hoje pouco mais do que alguns recortes amarelados guardam uma fraquíssima memória.

Estes recortes aliás fazem parte da narrativa desta impressionante novela, que assim rompe com vários elementos tradicionais do gênero, deixando »dados« históricos para os jornais ou a internet. O autor (que muitas vezes tendemos a confundir com o narrador) se restringe a contar uma estória, a de um jovem no Recife, que está fascinado e secretamente apaixonado pela radiante revolucionária Soledad, »Sol«, vinda do Paraguai, do Chile, do Uruguai, de Cuba (?) para se juntar aos jovens rebeldes (e de certa maneira muito ingênuos) provincianos do Brasil em seus anos de chumbo.

»Á distância, poderia ser dito que aqueles jovens estavam todos loucos, em 1972. Todos, da mais ridícula alienação, da mais feroz angústia até o delírio suicida, em graus variados, todos estavam loucos. Mas isso, antes de ser uma condenação, é um reconhecimento de humanidades.« (p. 43)

… diz o narrador décadas depois, quando resolve juntar as suas memórias, indignado, depois de ter visto o traidor, a grande desilusão de sua vida, na televisão. E começa a falar, a escrever, sobre a mulher que para ele, naquele tempo, significava tudo de que sonhava: Beleza, ousadia, sensualidade, um mundo mais livre. E este sonho, esta projeção, é bruscamente destruído, justamente por mais um que todos eles invejavam: Daniel, o líder »treinado em Cuba«, que na verdade se revelara agente infiltrante da própria ditadura.

E não só os sonhos …

Aqueles tempos deviam ser loucos, e nas vitrolas tocavam os Tropicalistas (bem alto, pois as paredes tinham ouvidos), mas um sonho que »dançava«, muitas vezes levava uma pessoa concreta, uma vida, como no caso de Soledad, que, ainda por cima grávida do namorado, fora assassinada pelo próprio. A vida escreve e escrevia dramas piores do que a literatura jamais o seria capaz.

E o narrador (que muitas vezes se confunde com o autor) em sua indignação, em seu luto de décadas em que se mistura um sentimento de culpa (afinal ele sobrevivera, por um acaso, uma bobagem), procura por palavras e expressões, na tentativa de um ensaio que seja capaz de captar, de narrar, de explicar, aquilo que se passou, não nos jornais, mas nas cabeças e nos corações daquela geração danificada de 1973. 

Soledad no Recife é mais do que uma ficção, e muito mais do que uma novela histórica. Uma homenagem a Soledad em representação aos tantos assassinados anónimos, isso sim, com certeza, mas também não só, e muito mais do que isto … Talvez um resgate … de um estado de alma, daqueles que sobreviveram, feridos, os anos intermináveis da ditadura.  

*Escritor, tradutor, que edita o Nova Cultura, site de literatura na Alemanha. Texto publicado  em   http://novacultura.de/wb/pages/livros/urariano-mota-soledad-no-recife.php



Escrito por urariano às 12h34
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