
Ñasaindy Barret, filha de Soledad, ao lado do autor do livro
O último poema de Soledad Barrett Urariano Mota Arte gera arte. Fraternidade gera fraternidade. Humanidade gera humanidade. Se não for isso, observem que coisa linda, muito mais que linda, Ñasaindy Barrett, a filha de Soledad Barrett, me enviou ontem à noite. Digo linda e mais que linda para expressar uma categoria que vai além da estética, alcança a história, faz da história o destino de toda a gente, e num só passo encarna uma poética real, viva, como um destino grafado em versos. Uma estética, enfim, que é também uma ética e uma profecia decifrada. Quero dizer, devo dizer. Esse presente me chegou como se fosse gerado pelo texto “Diário da Paixão e da Infâmia”, que a jornalista e escritora Memélia postou em seu blog http://memeliamoreira.com/blog1/2009/11/03/diario-da-paixao-e-da-infamia/ Recomendo o texto de Memélia, que é belíssimo. Mas o fato é que , ao ler a crítica de Memélia para o livro “Soledad no Recife”, Ñasaindy me escreveu: “Muito bom! Compartilho com ela de todos os detalhes e sensações. A música da Gal que ecoa por entre as tuas páginas, ‘Mamãe, mamãe, não chore, a vida é assim mesmo…’ e o comentário de Memélia: ‘E quantas mães até hoje ainda não enxugaram suas lágrimas porque seus filhos se foram e sequer os corpos apareceram?’... fez eu me levantar da cadeira e ir direto à papelada reservada (às memórias de minha vida e das pessoas que por ela passaram e do que me deram ou o que delas eu guardei...e que às vezes manuseio para encontrá-las e me encontrar nelas) pra te dar este poema, que talvez você já tenha, mas na dúvida..
Ele foi enviado para mim por Nanny Barrett, irmã de Soledad (outra grande guerreira, como todos da família), logo depois que nos conhecemos, no início da década de noventa. Hoje ela não está mais entre nós. O poema foi escrito por Soledad, que o deu de presente para o aniversário de sua mãe em 11 de março de 1971. Madre, me apena verte así el quebrado mirar de tus ojos azul cielo en silencio implorando que no parta.
Madre, no te apenes si no vuelvo me encontrarás en cada muchacha de pueblo de este pueblo, de aquel, de aquel otro del más acá, del más allá talvez cruce los mares, las sierras las cárceles, los cielos pero, Madre, yo te aseguro, que sí me encontrarás! en la mirada de un niño feliz de un joven que estudia del campesino en su tierra del obrero en su fábrica del traidor en la horca del guerrillero en su puesto siempre, siempre me encontrarás! Mamá, no te pongas triste, Tu hija te quiere. Soledad Barrett
Traduzo em minhas palavras, e se você quiser pode apresentar para todos. Este poema diz muito sobre ela, monta a sua personalidade. Mãe, me entristece te ver assim o olhar quebrado dos teus olhos azul céu em silêncio implorando que eu não parta.
Mãe, não sofras se não volto me encontrarás em cada moça do povo deste povo, daquele, daquele outro do mais próximo, do mais longínquo talvez cruze os mares, as montanhas os cárceres, os céus mas, Mãe, eu te asseguro, que, sim, me encontrarás! no olhar de uma criança feliz de um jovem que estuda de um camponês em sua terra de um operário em sua fábrica do traidor na forca do guerrilheiro em seu posto sempre, sempre me encontrarás! Mãe, não fiques triste, tua filha te quer. Soledad Barrett”
Agora vocês entendem a estética que é uma ética e uma profecia em um só poema. A vida que veio depois mostrou esse poema como uma canção de despedida. Que pode ser lido enquanto escutamos “Mamãe, coragem”, http://www.youtube.com/watch?v=bZ4oTOud8Fk Agora.
Escrito por urariano às 19h02
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