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SOL: A MÁRTIR DO PERNAMBUCANO URARIANO MOTA
(Luiz de Almeida)*

     Minhas lentes já estavam vencidas, prejudicando assim qualquer esforço para uma rápida leitura, mesmo tendo a prática da leitura dinâmica. Mas, ao receber o livro do meu amigo Urariano Mota, Soledad no Recife, não tive outra escolha após ler os textos do Alípio Freire e a apresentação do Flávio Aguiar: Primeiro fui passar um novo café, conferir o maço de cigarros e ajeitar o abajur ao lado da escrivaninha. Enquanto a água fervia, lembranças já vagaram e divagaram pela mente: ditadura militar, 1970, Grêmio Estudantil Guilherme de Almeida e o grande jornal “Cadelão Taimes” (Não é erro de digitação, o jornal tinha esse “nome”), DOI/CODI, OBAN, Cemitério Dom Bosco no Distrito de Perus/SP, assassinato do José Maria Ferreira Araújo (ou Edson Cabral Sardinha), assassinato do jornalista Luiz Eduardo Merlino (SP), Mário Alves (RJ), o sumiço do Rubens Paiva, e... Mentira, traição e medo. Um resíduo de raiva parecia renascer dentro do peito trazendo a execrabilidade da minha paz interior.
    

Nas primeiras páginas não consegui discernir o escritor do personagem. Vibrei. Ele seria ele uma testemunha ainda viva? Aos poucos essa pré dedução foi sendo desfeita pela imaginável fisionomia facial e contornos corporal de Soledad. Daniel seria apenas um coadjuvante. E fui degustando página a página, um café, outro cigarro, divagações entre uma tragada e outra, novas lembranças... Meu Deus, quatro horas da madrugada e só então percebi que havia parado de ler na página 86. O café não desceu e com as mãos trêmulas, mal consegui ascender mais um cigarro. Um trepidar incontrolável dos lábios, soluços e lágrimas. As palavras do cabo Anselmo descritas por Urariano fizeram-me estremecer de raiva. Episódios de traição maligna medraram na minha mente. Lembrei-me do episódio do “Cadelão Taimes”, onde eu e meus outros amigos fomos abandonados por um “anselmo” do grupo que se passava por amigo, justo nas ocorrências da censura e prisão do Jornal. Descobria ou relembrava, não sei até agora discernir corretamente, que aqui em Piraju também existiu e ainda vive um traidor com atitudes similares às do mentiroso, covarde e traidor cabo Anselmo, pois no momento do aperto, enquanto éramos “solicitados” para deixar a escola e chamados para depoimentos, como fui no DOI/SP, o borra-botas fugiu. E continua assim até hoje, mentiroso e traidor. Apesar de tudo: sinto pena, pois ao vê-lo pelas ruas só consigo avistar um derrotado e sem prestígio, e que ainda se presta ser boi-de-piranha no meio político daqui. É ainda daqueles que mente e acredita nas suas próprias mentiras.

 

     Mais calmo, retomei o livro e custou-me parar de virar e desvirar as páginas 89 até a 86. Aquelas imagens de Soledad me cativaram. O sorriso estampado numa face sincera reflete bem o eu interior daquela mulher. Sorriso igual só havia visto em 1970, na face de outra mulher, minha mãe, de nome Zita, ao ver-me entrando portão adentro retornando de São Paulo após uma noite e um dia de privação no DOI, ocasião que fui salvo pelo meu tio Luiz Alves de Almeida, um sargento da antiga polícia Metropolitana e participante ativo da OBAN, que somente em 2007 fiquei sabendo que havia falecido. A causa-morte eu não sei até hoje.

 

     Li até a síntese biográfica. Já era dia. Meus olhos ardiam e a língua ficara áspera de tanto café e cigarros. Não estava com sono, mas ainda em estado de raiva e êxtase misturados. Esqueci da Sol e lembrei-me do Urariano. Voltei abrir o livro no “capítulo 13”: Um livro se constrói sob dificuldades – na penúltima linha onde Urariano cravou: “(...). Bem sei que autores não choram. Autor deve ser duro e frio. (...)”. Aqui, o único ponto que discordei do Urariano, pois se “autores” não choram, não têm o direito de fazer seus leitores chorarem.

 

     Está marcado para o final deste mês, provavelmente no dia 25, eu ler este livro novamente. Só que agora o lerei em voz alta e com platéia. Essa platéia é especial, pois será composta de apenas duas pessoas. Um casal amigo. Moram em Botucatu/SP. Ele é cego. Estudou comigo no colégio interno quando tínhamos 12, 13 anos. Em 1971, numa manifestação estudantil, estilhaços de uma possível granada desfiguraram seu rosto e a visão. Era um líder estudantil e cursava medicina. Hoje, casado com aquela que foi sua namorada desde 1970, escutei seus berros de alegria e urros e mais urros quando falei com ele ao telefone e contei sobre o livro do Urariano que acabara de ler. E ouvia sua esposa, ao seu lado, dizendo: é a Sol assassinada em Recife, é a Sollll... Confirma o livro é sobre a Sol. Perguntaaaa. E foi o que aconteceu. Confirmei ser realmente a Sol, Soledad Barrett Viedma.

 

     Fiz esse preâmbulo apenas para comentar sobre o Urariano e seu livro Soledad no Recife, lançado dia 29 de julho deste ano, pela Boitempo Editorial, São Paulo. É difícil falar do Urariano como pessoa, pois não o conheço pessoalmente, apenas pela Internet. Tive a honra de receber matéria de sua autoria para postar no meu Blog Retalhos do Modernismo. Mas, gostaria de tecer alguns comentários a respeito dele, primeiro apenas o meu Dileto Amigo Urariano “virtual”:

     - Percebi seu potencial quando me enviou o texto para postar no meu Blog. Antes de ler Soledad no Recife, conheci Urariano por foto, que postarei no final. Meu filho é fotógrafo profissional. Ele me ensinou que, tirando as pessoas que são modelos profissionais, nós, os simples mortais, sempre estampamos na fisionomia eternizada numa foto, todo o nosso eu interior e os nossos sentimentos mais aguçados naquele momento do clique da máquina. E nessa foto do Amigo Urariano, percebe-se, refletido na sua fisionomia, o seu interior inquieto e recheado de honestidade e justiça – grandezas essas que estão se escasseando dia após dia. Percebi sua satisfação e alegria por ter tido a coragem de ressuscitar a Soledad que existe dentro de cada um de nós, pelo menos dentro daqueles que não são “traíras”, medrosos e mentirosos. Urariano, meu amigo “ainda” virtual, ainda terei a oportunidade de um dia poder abraçá-lo – e que nesse dia haja Sol. Considero Você, Dileto Urariano, o Ernesto Cardenal Pernambucano (guardada as devidas diferenças de credo religioso).

 

     O Escritor Urariano: Sinceramente? Ao ler Soledad no Recife, fica difícil definir o estilo urarianico: um Romancista? Um Contista? Não seria ele um Poeta? Você, nobre Escritor Urariano, caso tivesse escrito o Soledad como auto (O Auto de Soledad no Recife), não teria tirado o efeito proporcionado pela belíssima forma utilizada. É indecifrável a forma do Soledad. Posso apenas cravar aqui uma única e ousada opinião pessoal:

     - “Você conseguiu com Soledad no Recife adentrar-se no rol dos escritores mais nobres deste país”.

 

     Dileto Urariano: concluo este meu artiguete feliz por ter tido a oportunidade de ler o teu Soledad no Recife e talvez ter sido, na minha edição, o teu primeiro autógrafo do lançamento. Parabenizo a Boitempo Editorial, pois sei muito bem que muitas outras grandes editoras não suportam esse estilo de texto. Acho que ainda existem Editores que tremem quando estão diante de textos que focam os delitos e os genocídios ocorridos no Brasil durante a ditadura pós-64. Não posso deixar de elogiar também a maravilhosa apresentação do Flávio Aguiar e a belíssima síntese do Alípio Freire.

 

     E ao Dileto leitor deste Blog: Caso ainda não teve a oportunidade de ler Soledad no Recife, procure adquiri-lo. Faça um bom café ou chá, e comece a ler num dia que não tenha nenhum compromisso, pois você não conseguirá parar. E não tenha vergonha de sentir raiva e chorar, pois a história é ficção, mas os personagens e os fatos foram e ainda são reais, assim como muitos outros fatos similares ainda não foram devidamente explicados – e que mais nenhuma “Sol” venha tornar-se mais uma “mártir” neste nosso país.

* (Luiz de Almeida,  57: Piraju, São Paulo. Escritor e Pesquisador da Semana de Arte Moderna de 22 e Seus Personagens. Autor do livro de poemas ECOS. Moderador do Blog Retalhos do Modernimo - http://literalmeida.blogspot.com )


Escrito por urariano às 21h09
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