
Mario Benedetti e o Recife Urariano Mota Na imprensa brasileira, as notícias sobre a morte de Mario Benedetti são lacônicas, medíocres e omissas. Peguem o google notícias em España e terão um perfil digno de um grande escritor. Já no Brasil... Uma nota do Estadão nada diz sobre o papel político da sua obra. Na Folha de São Paulo, em linhas brevíssimas, passa-se como um gato sobre brasas, na menção às idéias de fraternidade do escritor: "Devido às suas posições políticas, Benedetti exilou-se do Uruguai por doze anos, quando o país sofreu um golpe militar, em 1973. Morou na Argentina, Cuba e Espanha e voltou ao Uruguai em 1985. Benedetti foi ainda um grande crítico da política externa dos EUA". Pior, no G1, o espaço para a morte de Benedetti é ocupado por uma imensa foto e a informação lacônica:
"O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje em Montevidéu aos 88 anos. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar ‘Poemas de oficina’, uma de suas obras mais conhecidas. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu". Isso é mais que ridículo, é criminoso. Para sair desse quadro, passem o olho no El País, e leiam "El poeta del compromiso". Um banho de informação. Como a grande imprensa não vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses. MORTE DE SOLEDAD BARRET
Mario Benedetti Viveste aqui por meses ou por anos traçaste aqui uma reta de melancolia que atravessou as vidas e a cidade
Faz dez anos tua adolescência foi notícia te marcaram as coxas porque não quiseste gritar viva hitler nem abaixo fidel
eram outros tempos e outros esquadrões porém aquelas tatuagens encheram de assombro a certo uruguai que vivia na lua
e claro então não podias saber que de algum modo eras a pré-história do íbero
agora metralharam no recife teus vinte e sete anos de amor de têmpera e pena clandestina
talvez nunca se saiba como nem por quê
os telegramas dizem que resististe e não haverá mais jeito que acreditar porque o certo é que resistias somente em te colocares à frente só em mirá-los só em sorrir só em cantar cielitos com o rosto para o céu
com tua imagem segura com teu ar de menina podias ser modelo atriz miss paraguai capa de revista calendário quem sabe quantas coisas porém o avô rafael o velho anarco te puxava fortemente o sangue e tu sentias calada esses puxões
soledad solidão não viveste sozinha por isso tua vida não se apaga simplesmente se enche de sinais
soledad solidão não morreste sozinha por isso tua morte não se chora simplesmente a levantamos no ar
desde agora a nostalgia será um vento fiel que flamejará tua morte para que assim apareçam exemplares e nítido as franjas de tua vida
ignoro se estarias de minissaia ou talvez de jeans quando a rajada de pernambuco acabou completo os teus sonhos
pelo menos não terá sido fácil cerrar teus grandes olhos claros teus olhos onde a melhor violência se permitia razoáveis tréguas para tornar-se incrível bondade
e ainda que por fim os tenham encerrado é provável que ainda sigas olhando soledad compatriota de três ou quatro povos o limpo futuro pelo qual vivias e pelo qual nunca te negaste a morrer.
Escrito por urariano às 12h12
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|