
UM RECIFE SEM ESCRITORES
Urariano Mota A notícia corre a cidade: o Plano Municipal de Cultura do Recife aceita opiniões antes de virar lei. E quem estiver interessado em contribuir, que escreva para o vereador Osmar Ricardo, osmar.ricardo@recife.pe.gov.br. Isso até segunda-feira. Por isso me apresso em tornar pública esta mensagem, para que a caixa postal do vereador não a devolva entre tantas sugestões de maior peso. Por isso tento e atento a seguir. Ainda que me julgue a gente toda por perdido, vendo-me tão entregue a tal cuidado, li o Plano Municipal de Cultura na esperança de vê-lo abrigar os criadores de prosa e verso. Erros meus e má fortuna em minha perdição se conjuraram, dá vontade de dizer. Mas digo, olhando bem: no Plano os escritores sumiram, se é que existem, pois raro são vistos na cultura da cidade. Parece que, com exceção de Ariano Suassuna, não há escritores no Recife. Entendam, por favor, Ariano vive sua glória com justiça, depois de toda uma vida de trabalho, criação e literatura. Mas no Recife existe só Ariano? E os outros, negros, mulatos, índios e mamelucos? Onde, em que limbo, inferno ou purgatório se encontram? Sintam. Para um Plano de Cultura que vira Lei daqui a pouco, com valor e poder até 2019, deveríamos esperar para os escritores algo mais que um Festival Recifense de Literatura todos os anos. A não ser, claro, que os escritores estejam devida e honrosamente contemplados com "Fomento à Literatura - Realizar, anualmente, o Concurso de Prêmios Literários e publicar as coletâneas Marginal Recife, Estação Recife e Invenção Recife, que contemplam a produção poética da cidade; reforçar as publicações; estabelecer um calendário para os prêmios literários nas escolas". O recurso de copiar e colar não foi bem o que fiz agora, na citação anterior. Ele se deu, na verdade, no Plano, quando misturou um relatório de atividades da Secretaria Municipal ao que será norma nos próximos 10 anos. Mas admitamos, num ato de crença, boa fé e melhor vontade em uma só pessoa, que as coletâneas Marginal Recife, Estação Recife e Invenção Recife se rep itam ao infinito. Mas, perguntamos, para que se editar no município, se os livros não circulam, se enchem os depósitos, e de tal maneira que um dos problemas da Secretaria de Cultura é conseguir espaços para amontoar tantos livros "publicados"? Se os livros não se leem, eles, além de uma despesa inútil, são uma forma moleque de se publicar e se continuar inédito. Mas continuemos, ó homem de pouca fé e açúcar. Pesquisamos mais no Plano e, sentimos, devíamos substituir o açúcar por algo mais dietético. Isso porque nos Programas Estratégicos , na Descentralização Cultural nada há para os escritores. O que é natural, no Recife escritor ou já é centrado ou vive a baixar em centros. Adiante. Nos Direitos Culturais, também nada vezes nada. É direito. Para quê direito à literatura? Na Promoção de Políticas de Transversalidade (que nome!), também nada. O que é natural, também entendemos. As transversais literárias sempre deixam os nossos literatos em uma encruzilhada. Ou vão para o inferno ou vagam em ruas como almas penadas. Adiante. Na Econonomia da Cultura, nada. O que é natural, isso também compreendemos. Com tanta despesa de livros publicados, de que economia reclamam os nossos poetas? Adiante. Em Cultura e Comunicação, também, já viram, nada. Quem é culto, sabe, Literatura não é comunicação, pois escritor não se comunica, vive a conversar com as musas. Muito bem. Com tantos nadas, onde poderia mesmo a Literatura entrar em um dos Eixos do Programa Estratégico do Plano Municipal de Cultura do Recife? (ufa, é um trem de nomes) Onde? Ó homem de má vontade, olhe só onde: "FORMAÇÃO DE PÚBLICO..." Em décimo quarto lugar entre 16 ordens, aparece "...14. Desenvolver anualmente programas de incentivo à leitura, com oficinas artísticas e técnicas para crianças, jovens, adultos e idosos, realizadas em diversos locais, como escolas públicas, centros culturais, centros de reabilitação, associações, entre outros. ". Antes que nos ocorram perguntas do gênero, por que anualmente, e não de modo permanente, todos os dias do ano?, devemos reconhecer que nesse ponto é tocada a ferida. E dói, porque, também neste ponto estas linhas devem propor algo, para deixar algo razoável no lugar do vazio e ausência da literatura. Por isso propomos, ilutre relator da nova Lei Municipal de Cultura. Considerando que, no geral, descontadas as honrosas exceções 1. Professores não leem e por isso não podem transmitir um vírus que não possuem 2. Professores - sempre honrados na exceção - e alunos perderam a prática de traduzir o que leem, quando, para a inteligência Propomos Um programa de alfabetização massiva nas escolas públicas, e de tal modo que alcance os mestres e alunos, 360 dias do ano. E quando dizemos alfabetização, queremos dizer, que o município assuma como seu dever indeclinável a conquista dos mestres e alunos para as letras e para sua experiência insubstituível. Para maior clareza, que a Lei abrigue programa de formação de leitores que deve ser franca, despudorada e assumidamente de literatura, para os professores e alunos das escolas públicas do Recife. Que se faça uma ponte da poesia e da prosa de hoje até à prosa e poesia dos nossos clássicos. Que tal programa seja uma sedução do conhecimento, como uma formação de gosto. De Carlos Pena e João Cabral aos poetas independentes. Do romance local a Crime e Castigo e Dom Quixote. Um despertar para a empatia imensa da literatura. Um programa enfim que seja realizado por escritores, por quem vive a literatura como destino, vida ou vida. Justificativa Porque não é mais possível que em um projeto de Lei se fale de literatura como uma concessão, quase um pedido de desculpa entre manifestações de palco, de estrelato e público de festivais. Não é possível que se fale da literatura na Lei futura para cobrir um lapso: "Ih, esquecemos a literatura. Então põe aí, letras também..". Não é possível enfim que em uma Lei de Cultura se deseje a literatura sem escritores, esses incômodos que vivem no mundo da lua, que para nada servem, como julga a vã, imensa e resistente ignorância. Os poetas, no Plano Municipal de Cultura nem sequer são lembrados no aniversário da cidade, deste Recife que eles cantaram como a terra entre o mar e o sonho. Para este arremedo de proposta, concluindo, é próprio encerrá-la com versos de Carlos Pena Filho, que esperamos não se tornem proféticos para os escritores na Lei dos próximos dez anos: "Recife, cruel cidade, águia sangrenta, leão. Ingrata para os da terra, boa para os que não são. Amiga dos que a maltratam, inimiga dos que não"
Escrito por urariano às 16h47
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Augusto Boal, lembrança Urariano Mota Os necrológios envergonhados dos jornais se abrem hoje com o registro "Morreu na madrugada deste sábado, aos 78 anos, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal", para depois, num acréscimo, dizerem coisas como "em 1971, foi preso pelo regime militar, pelas ligações com o Partido Comunista do Brasil. Três meses depois, ao ser solto, foi para os EUA e, em seguida, para Argentina e Portugal". E as folhas mais mostram quanto mais escondem, pois fica patente o constrangimento do registro do falecimento de um homem como tu, ao mesmo tempo que mencionam, de longe, a razão do teu viver. Para os mais jovens, que leem um necrológio de tal natureza, os teus três meses de prisão podem até parecer que foram algo como uma repressão passageira, leve, pelo crime de uma ideologia clandest ina. Historinha dos mais velhos. Isso porque, nesses registros, o pano de fundo do Brasil da ditadura, o teatrinho dos tiros trocados entre terroristas e patriotas, a tortura, os a ssassinatos, a infâmia do Brasil de quando foste preso, "já passou, não é?, a dorzinha foi embora". É a isso que chamam edição, a nova edição: omitir em primeiro lugar, para depois torcer, distorcer, insinuar coisas que são veneno. Quem te mandou ser ligado a partido ilegal? Se saímos dos jornais, e vamos para as grandes redes na web, dos provedores, recebemos a tua penúltima notícia como "Na década de 70, por estar exilado do país pela ditadura militar, difundiu seu método pela Europa. O seu trabalho pelo Teatro do Oprimido rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2008", e a tua foto, sem a substância do que eras, apenas o rosto de um coroa meio maluco, cabeleira grisalha, assanhado, camisa florida, dói na retina. A tua mais recente notícia se insere no menu de "famosidades". Estás em um menu onde Amy Winehouse desmaia no Caribe, Ivete vai homenagear a mãe em tributo ao Rei, cunhado de Britney sai do hospital. A máquina da mediocridade, do falso, do business, contra a qual tanto lutaste, tenta nivelar a tua pessoa a divertimento. Isso quando apareces, porque em outros portais nem te deram o desprezo de a gripes e porcos te misturarem. Para te dizer adeus, como a lembrar a composição que Chico Buarque te dedicou em Meu Caro Amigo, nada melhor que um trecho da Carta do MST endereçada a ti, que a web livre divulgou há pouco: "Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta". Leio a frase e me ponho a pensar, a ruminar, em como teria sido bom se tivesses cruzado o caminho de um adolescente magro e faminto do subúrbio de Água Fria, zona norte do Recife. Sem pai, sem mãe, de patrimônio só o desejo, um dia aquele menino em 1965 quis ser ator. Sim, que mais queria, o que só queria? Ser ator de teatro, por que não? Então ele se dirigiu e procurou estímulo com um endinheirado empresário, que se dedicava ao teatro nas horas vagas. - Seu Costa, assim, sabe?... será que o senhor, que conhece tanta gente, será que não podia me indicar para trabalhar no teatro? Seu Costa em 1965 divertia-se no Teatro de Amadores de Pernambuco, lugar de classe média muito sensível naquele tempo. O novo burguês então olhou o rapazinho de cima a baixo, mediu o jovenzinho que de gente era só olhos: - Você?! Você entrar para o teatro?! É o mesmo que entrar em mato sem cachorro. E o adolescente de 14 anos desistiu do teatro,de amadores e profissionais para sempre. Penso agora em como teria sido bom que ele em 1965 soubesse que no teu teatro havia uma saída. Ao ler a carta do MST há pouco, sinto que não poderia dizer "Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras". Eu não lavro o campo, nada sei plantar, não crio galinha, nem mesmo tenho a coragem da luta pela terra desse movimento. Mas bem posso lembrar outros oprimidos. Lembro um artista no bar Marola, em Olinda, que pedia dinheiro como pagamento para escrever nomes de clientes em grãos de arroz. Como são eloqüentes os artistas! Como sabem simbolizar com a precisão da flecha que atinge o olho da mosca. Para comer, esse artista no Marola escrevia minúsculo em grãozinho de arroz. Era um jovem, pálido, e é interessante como o vejo vestido em túnica grega a desenhar a mediocridade de toda a gente em grãos miudinhos. Melhor que a sua arte era o orgulho da sua arte. Enquanto percorria as mesas ele era insultado. Dele zombavam os miseráveis com dinheiro na carteira: - Se eu fosse viver disso... - Planta arroz, dá mais futuro ... Enquanto ouvia isto, ele e seu orgulho, albatroz ferido cantava baixinho: "Ponta de areia, ponto final, da Bahia a Minas, estrada natural. Que ligava Minas ao porto, ao mar, caminho de ferro, andar, andar". Por isso escrevo ao fim. Em lugar da visão do teu corpo a queimar, o corpo, só o corpo, aquilo e aquele que não mais é Boal, em lugar de qualquer visão mórbida, melhor lembrar-te ressurgido, a continuar tua vida no corpo e alma desses artistas que se erguem, e no meio da humilhação continuam, apesar de tudo, a andar, andar.
Escrito por urariano às 12h02
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