Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 La Insignia
 Nova Cultura
 Musibrasil
 Blog de Jesús Gómes, editor de La Insignia
 Samba-Choro
 Comunique-se
 Blog de Nei Duclós
 Blog de Ral, chargista, ilustrador
 Blog de Luis Nassif
 Canhoto da Paraíba
 Ivan Maurício
 Lilian Elphick
 Bodega Cultural
 Letras de Chile
 Alexandro Gurgel
 Outros Ventos
 Conexão Maringá
 Literatura Livre
 Retalhos do Modernismo
 Lavanguardia




Sapoti da Japaranduba
 


Da esquerda para a direita, Nena, Gleiciane e Flávia Desirée

Vida de Travesti

 

Urariano Mota

 

 

Divulgo aqui um trecho de reportagem inédita sobre o V Encontro de Travestis e Transexuais do Nordeste.

 

 

 

Dentre as muitas participantes se apresentaram ao repórter três pessoas: Nena, Flávia e Gleiciane. Se o leitor me acompanha, fará algumas descobertas. A primeira delas é que  na luta pela sobrevivência dos travestis há sinais que não notamos. Por exemplo, agitar a cabeça, jogando os cabelos longos sobre os ombros. Nas mulheres de origem biológica e definição, isso pode ser instinto de fêmea para seduzir, pura armadilha da feminilidade. Em travestis, não. É uma afronta dirigida à concorrente ou à intrusa. Marcação de terreno. “Desapareça! O que você quer?!”, gritam em silêncio com o jogar de cabelos nos ombros.                

 

A segunda descoberta é que seus nomes não são simples nomes de guerra. Os nomes são as suas pessoas. Mais, o que não podíamos sequer adivinhar: o sexo macho de nascimento, para elas, é larva. Porque a sua plenitude é ser mulher. Daí que prefiram, exijam ser chamadas sempre com todos os substantivos e adjetivos no feminino. São as travestis. As meninas. As senhoras, damas, princesas ou senhoritas. Sem a menor sombra de ridículo ou ironia. Nasceram assim e são assim, um conflito vivo.

 

Nena Patrícia é uma jovem morena, com a pele a rebentar como uma adolescente. Tem 29 anos e aparenta ter menos. Daí que se pode acreditar na idade que declara. Alimenta, como todas, o sonho de encontrar um marido, de preferência carinhoso, trabalhador, fiel. Já Gleiciane é desconfiada e esquiva como poucas. Tem 38 anos, a pele clara, e conta que vai fazer o vestibular de gastronomia. 

 

- Qual o divisor, qual o limite, de deixar de ser homossexual para ser travesti?

 

- Isso aí é uma questão de cabeça. Desde criança eu me identificava como mulher. A homossexualidade é diferente. Travesti é aquela que se veste 24 horas, que se caracteriza como mulher, que tem corpo de mulher, toma hormônio.

 

Flávia, a terceira a ser ouvida, aparenta ser a mais madura. Peço-lhe que se apresente, e cometo a indelicadeza de lhe perguntar a idade. 

 

- Sou Flávia Desirée... 38 anos.

 

- Desirée... Por que esse Desirée?

 

- É porque é um sobrenome francês, cheio assim de significação... é um sobrenome mais forte.

 

- Você fez transformações no seu corpo?

 

- Sim, fiz. Fiz transformação injetável. Eu passei do hormônio para o silicone. Eu tenho o rosto siliconado, tenho os seios siliconados, tenho os quadris siliconados. Toda feita com silicone.

 

Das três, Flávia Desirée é a que possui mais experiência. Ao lhe perguntar se já sofreu violência, ela me devolve:

 

- Qual delas? Porque eu já fui sequestrada, já fui atirada (empurrada do alto), já me levaram pra mata, pro Lixão da Muribeca, para uma praia deserta, onde me fizeram tirar a roupa... e tudo isso tanto dos marginais quanto da polícia. Em várias cidades. Rio, São Paulo, Vitória...

 

- Em qual delas a barra é mais pesada para a travesti?

 

- Rio de Janeiro e São Paulo. É pior do que o Recife. Rio e São Paulo é mais problemático. Eu não sei se era por causa da época, década de 80, mas quando eu comecei a viajar, lá as coisas eram muito mais violentas. Em São Paulo muitas travestis se jogavam, se atiravam do viaduto, quando viam o carro da polícia. Muitas se escondiam, a polícia caçava com cachorro, dava choque elétrico.

 

Volto para Nena Patrícia. Das três é a que aparenta ser a mais frágil, ou a que procura se adequar a um ideal leve, de louça, a que um vento mais bravo poderia quebrar.

 

- Em um mundo ideal, você seria travesti?

 

- Seria. Se eu renascesse, voltaria a ser travesti. É como diz Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. 

 

- Mas você tem mais dor ou delícia de ser o que é?

 

- É.... (Silêncio) É uma delícia assim, porque eu sou o que sou, a minha pessoa, a minha expressão. Acho que é mais... é muita dor, mas também não poderia ser de outra forma, porque eu não saberia me reprimir. Seria mais frustrante viver reprimida, sem me expressar.

 

No que Flávia Desirée muito discorda.

 

- Eu mesma já disse à minha mãe: “quando um dia eu morrer, eu não quero reencarnar no corpo de uma travesti mais não. Porque eu não aguento mais”. É uma vida muito sofrida, porque todo o mundo apedreja.

 

Ao fim, Desirée pede que na foto sejam evitados os seus pés. Quando a olhamos bem, descobrimos a razão. Calçando sandálias de borracha, não ficaria bem uma Desirée mostrar os pés feridos e inchados na revista.  

 

 

 

(Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/)

 



Escrito por urariano às 10h18
[] [envie esta mensagem
] []





A salvação pela literatura

 

Urariano Mota

 

 

Nos tempos em que pensei ser professor, sempre tentei dizer a jovens estudantes que a literatura  era fundamental na vida  de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Primeiro porque a literatura ministrada a eles, em outras aulas, destruía todo o gozo de viver. Os mestres, profissionais ou burocratas, ensinavam-lhes a anti, a literatura para antas, com listas de nomes, datas e resumos de obras, nada mais. Em segundo lugar eu não fecundava porque o valor do sentimento, o sentido de uma rosa, o cântico de amor ou o desajuste de pessoas em uma sociedade corrupta nada significava para as tarefas mais práticas, que se impunham.

 

- O que eu ganho com isso, professor?

 

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas quando o petardo de uma frase de Joaquim Nabuco ganhava a zombaria de toda a gente. Eu sorria e me punha a gaguejar coisas estapafúrdias do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

 

- O que eu ganho com isso, professor?

 

Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas a estes periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. (Há um relato sobre isso em “Histórias para adolescentes pobres”.)  Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Mas tudo bem, eu me dizia, que se dane o nome, vence a literatura.

 

No entanto, agora refletindo enquanto escrevo, descubro que ainda assim havia uma grandiosa derrota nessa vitória de extremo recurso. Eu, o professor, falhava como professor. Quero dizer, eu não acendia a chama em seus corações como um fogo de pentecostes, com o calor de que a literatura é um valor permanente, alto e tão alto que por vezes parece substituir a própria vida. Quero dizer, para ser mais preciso: eu não fazia aqueles adolescentes atirarem-se aos livros, que seriam uma casa, um céu, um amigo, uma amiga, um amor, a namorada. Os jovens se quedavam por momentos diante do relato e depois mudavam de assunto, para outra coisa mais urgente. Afinal, jovens precisam comer, vestir, beber, e pegarem em namoradas mais concretas que um soneto de Camões.

 

O professor falhava porque prática, grosseira e opressora era a onipresença do mundo das necessidades. A literatura não se inscrevia como uma prática nesse mundo. E prática aqui em dois significados: como um hábito e como uma intervenção útil, pragmática. A literatura se opunha ao mundo prático. Na visão de todos, ela era como um luxo, um caviar... mas me expresso mal, porque o luxo é desejado, o caviar é querido. Era muito pior: a literatura roubava o tempo que deveria estar empregado em outra coisa. Que coisa? Qualquer coisa, coisa qualquer. Os passatempos mais estúpidos seriam mais necessários que essa inominável que furtava energias, dinheiro e ações dignas de serem vividas.

 

- Em vez de estar lendo, você devia...

 

Então eu não mais sorria. No mais íntimo de mim eu me julgava, eu me sabia certo como um neurótico. Tudo era o contrário do que eu pensava, mas eu estava certo. Certo como um neurótico silencioso. Pois que louco eu seria a proclamar as venturas da literatura quando todas e quaisquer coisas eram mais venturosas?

 

Esta semana uma jovem míope, tímida,  com 19 anos, deu uma substância e um conforto a essa qualquer coisa,  coisa qualquer que para nada serve, que furta o tempo e deixa os seus cultores neuróticos, malucos ou esquizofrênicos. Na altura em que a mocinha atravessava um momento difícil, prestou concurso para uma bolsa de estudo na Alemanha. Pois esta semana saiu o resultado: ela foi um dos três jovens escolhidos. E por isso viaja, e por um ano terá bolsa líquida e livre de 600 euros, e mais universidade, casa e alimentação. Mas como, eu perguntei a ela, como você conseguiu, se não é uma falante de alemão? Ao que ela, em seu espírito verdadeiro, me respondeu:

 

-  Eu fui salva pela literatura. Em minha carta contei como Goethe entrou em minha vida.

 

Ah, sabem? Hoje é domingo, faz sol, tudo é luz. O neurótico aqui dedica à jovem esta crônica.   



Escrito por urariano às 11h57
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ Ver arquivos anteriores ]