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Fotos de Marco Albertim

 

Valmir Jordão, poesia viva do Recife

 

Urariano Mota

 

 

“Tropecei, caí na rua,

ao tentar pegar,

com as mãos, a lua”.

 

 

O poeta Valmir Jordão sempre surpreende. De repente, ele pode aparecer com a cabeça rapada, de chapéu e óculos escuros e não será bem uma nova performance. Será um novo personagem, um heterônimo vivo, porque não quer ser um poeta morto. E mostrará, como explicação, seis marcas de bala no corpo, nada fictícias. Lembranças de um antigo atentado, de sua luta pela cidadania. Em outra oportunidade, chegará zen, calmo, ser surgido na fumaça do Recife. Em uma terceira oportunidade estará deprimido, amargo. E a causa da tristeza não será bem filosófica, mas a nada poética razão de não ter onde morar. Que não assobia como um samba de Caymmi.

 

Onde mora? Como vive? Não lhe façam perguntas assim, objetivas, necessárias, porque ele responderá, de passagem e de raspão, que mora aqui, ali, mas que no momento está de volta à casa de sua mãe, no grande Recife, lá em Jaboatão. O bom filho, quando pronto, retorna. Mas do quê mesmo o poeta vive? Valmir bem sabe o absurdo que é responder, “vivo de poesia”. Por isso, quando cercado, responde:   

 

- Faço oficinas de literatura, como agora.

 

- Mas você não tem isso os 12 meses do ano. Nem tem décimo terceiro, nem férias.

 

- Não, não.  Eu sou muito cigarra, mas tenho um lado formiga também. Eu guardo um pouquinho. Canto, e deposito uma parte desse canto, um terço. E me mantenho com o restante. 

 

Há quem o chame de poeta marginal. Mas este homem, que olho agora, é autor de um poema que hoje corre mundo, tão antológico que virou quase domínio público, “Coca para os ricos / Cola para os pobres / Coca-Cola é isso aí”. E autor, também, além dos magníficos versos lá em cima, que tão eloqüente falam do seu modo de ser e estar, de poemas que falam não dos marginalizados, mas como um próprio marginalizado, de consciência poética. Como este aqui, por exemplo:

 

AH, RECIFE

Dizem os bardos que uma cidade
é feita
de homens,
com várias mãos
e
o sentimento do mundo.

Assim Recife nasceu no cais
de um azul marinho e celestial,
onde suas artérias evocam:

Aurora, Saudade, Concórdia,
Soledade,
União, Prazeres, Alegria e Glória.

Mas nos deixa no chão,
atolados na lama
de sua indiferença aluviônica:

a ver navios com suas hordas
invasoras
e o Atlântico
como possibilidade
de saída...

“Esse tipo de poesia a geração de 1965 não fazia”, esclarece Lara, um poeta e crítico do grupo. “Porque a gente ligou para o visceral, e o engajado da esquerda, mas não com panfletarismo, não calcado na ortodoxia marxista. A gente se propunha a ir além da ortodoxia marxista. Tinha anarquista, tinha ...esse lado visceral muito forte, de expor as tripas da realidade concreta, de fazer o combate ideológico, anticapitalista”.

Pode-se dizer que Valmir Jordão vem de uma geração de poetas urbanos, radicais no seu fazer poético, que fazem da poesia morte, vida e profissão. Mas sem idéias orgânicas de um movimento. Características comuns de vida têm, é certo. A maioria é de origem pobre, todos autodidatas. (Mas afinal em que escola os escritores no mundo se formam?) São, por baixo, mais de 50 poetas, que se apresentam em palcos, em shows, em recitais. Os seus poemas estão em edições pequenas, de tiragens pequenas, de circulação pequena, de preço pequeno. Diferente dos grandes, eles são todos filhos de má família, um eufemismo que apenas quer dizer, como Valmir disse em MATER: “Não culpe as putas / pelo comportamento / nefasto dos filhos”. Chega a ser de uma grande brutalidade essa poética.

Em 2007, no intervalo de poucos meses faleceram dois poetas-símbolo do grupo, Chico Espinhara e Erickson Luna. O intervalo dos seus óbitos foi curto e eloqüente. Chico, em fevereiro de 2007, Erickson em abril de 2007. Dois meses entre um e outro. De males diferentes, mas de gênese única. Ambos poetas cujo estilo de vida, de aparência romântica, foi antes uma autodestruição pelo álcool e por outras drogas que não atingiram o veneno da legalidade. No começo de outubro do mesmo ano, faleceu o terceiro, o poeta França.

 

Acontecimentos assim não abalam, no sentido de que venha a desistir da poesia, o poeta Valmir Jordão. Pelo contrário, o que mais me surpreende, desta vez, é a crença absoluta que ele possui nos frutos e destino da literatura. Apesar de todas as adversidades. Como aqui, neste trecho:

 

“Eu não faço livro só pra vender. É o seguinte: a literatura pra mim é um caminho. Não é um fim de ganhar dinheiro, sabe? Nem meio de ganhar dinheiro. Pra mim ela é um instrumento de trabalho, que eu adoro fazer, que eu amo fazer. Agora, essa história do toma lá, dá cá, existe, sim, porque você recebe muito carinho, muita gentileza, e um livro não paga uma gentileza. Nem há dinheiro que pague uma gentileza, entendeu?”.

 

Que força penitente é essa? Entendam melhor o que isso significa: escrever poemas em caderno, à mão, porque não tem micro, ainda que alegue ser melhor assim, porque sua memória é táctil. Depois, copiá-los em um CD, em uma Lan House, para levar a uma gráfica. E finalmente vendê-los ao mundo na própria voz e na página impressa. Uma poesia, enfim, que vem ao mundo nas piores condições materiais, ou como ele diz, “materialmente, nada próprio”.

 

O poeta agora tem 47 anos. Apesar da estatura, um pouco abaixo da média, apesar da falta de armas físicas, é um homem de absoluta coragem artística. Quem o vê assim, não imagina uma conversa que teve com um criminoso. Ele havia emprestado 50 reais ao delinqüente, e ao cobrar o pagamento da dívida, recebeu a resposta:

 

- Não enche o saco, cara !

 

Ao que ele, Valmir Jordão, esse homenzinho convicto da sua singular diferença, respondeu:

 

- Escuta aqui. Tu estás pensando que só porque tu és bandido, eu tenho medo, é? Eu sou artista, cara. Eu sou poeta, cara, tás entendendo?   

 

No enterro de França, enquanto outros choravam, Valmir se acercou do caixão e, de frente para o poeta negro, fez um recital. Somente para França. Em voz alta, como se conversasse na melhor língua que sabe fazer, poesia. Um monólogo cuja força era um diálogo, possível, impossível, real e imaginário.  Ali o poeta falou para França da radical opção de suas vidas, na certeza de que razões de viver também são razões de morrer.

 

Um homem assim tem que ser respeitado. É uma luz, ainda que se apresente sem grana, sem dinheiro às vezes nem para o ônibus. Mesmo que tenhamos medo do que venha a falar de nossa pessoa, quando dele nos separarmos:

 

METAFÍSICO

Na saída dum chato,
é que percebe-se
a presença de espírito”.

 



Escrito por urariano às 12h59
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CADERNOS DE CLASSIFICADOS

 

Urariano Mota

 

 

Nos jornais existe uma seção, um caderno que reflete melhor a sociedade que as notícias da primeira página. Os anúncios classificados, que se publicam ao fim das edições, revelam sempre uma pista segura de como age e anda o mundo. Diferentemente da primeira página, que se faz ao gosto de quem organiza e hierarquiza os fatos de todos os dias, os anúncios  publicados lá no último caderno se fazem conforme a gente da cidade, que em linhazinhas breves, em espaços curtos fala. Ali, quase toda a gente pede, oferece e propõe do jeito que as coisas e as pessoas são, ou melhor, revela-se no como gostaria  que coisas e pessoas fossem. Numa palavra, compra-se, ou vende-se, conforme a natureza dessa gente.

 

O passar das páginas dos classificados são como o movimento de um avião que não levantasse vôo sobre a cidade, como um carro com asas que visse o conjunto de habitações sem que fosse preciso subir. Como o passar de carro por uma cidadezinha muito especial, lugar onde se mostram casas de todas as cores, tamanhos e arquitetura. O mais engraçado, nessa cidade entrevista, é o corte bruto, sem consideração ou piedade para o sofrimento ou a alegria.  É a passagem sem transição da mercadoria para o afeto da gente. Ali é o lugar de uma feira original, uma feira de tudo. Da mulher de que se necessita ao telefone que se vende. Do transplante de fígado, urgente, ao coração exposto,  nu, sem pudor à luz do dia. Do engraçado, do cômico, ao Correio Sentimental na seção de Serviços Profissionais, vindo logo antes do Esoterismo/Místicos.  Nessa feira vai-se da tragédia ao prosaísmo, entra-se no amor e sai-se no eletrodomésticos, porque no espírito da página quem manda é a ordem alfabética. Os Produtos Gráficos se  acham ao lado das Massagistas, ainda que estas não façam tatuagens, e os Telefones se  vendem junto ao Som/Vídeo, mesmo que toquem uma só canção, mecânica.

 

Imaginem os leitores de hoje o mundo daqui a cem anos. Imaginem a humanidade, se existir, daqui a cento e cinqüenta anos. Então imaginem nossos descendentes, se vivos forem, imaginem se eles poderão entender os hábitos que éramos, se lhes mostrarem a primeira página dos jornais de hoje. “Popularidade de Bush cai”. Nossos futuros, se houver, perguntarão, quem foi mesmo esse vegetal pequeno que se apelidava de Bush? Imaginem agora o leitor que nos sucederá nesses futuros anos ao ler estas linhas:

 

“PROCURO HOMEM – Sem compromisso, 38 a 45 anos, que ainda acredite no amor. ”.

 

Haverá linha mais eloqüente que expresse, a nossos pósteros, que em 2008 houve uma vez uma mulher sozinha, sofrida, que procurava alguém que AINDA acreditasse no amor? O advérbio aí é mais substancioso que nossa transformação em pó. AINDA. Isso dirá que essa mulher já sofrera, já se magoara muitas vezes, mas que era possuída pela humanidade, que não desertara da esperança. E nos compreenderão, se viverem, se lerem, quando lerem:

 

“TENHO 50 anos. Solteira, nível superior. Procuro pessoa livre, nível superior, de bons sentimentos, de 50 a 55 anos e acredite no amor, que tenha mente aberta e esteja também à procura de alguém para sincera amizade ou algo mais. Caixa Postal....”. Não importa se o anúncio quer o difícil, o quase impossível. Se quer um homem de 55 anos que não esteja casado, que não esteja farto de tudo, que assim não estando procure a mulher ideal, e para algo mais que a amizade. Não importa. Pois não houve uma vez um professor em Água Fria que aos 65 anos ainda buscava a namorada de infância? Então é possível.

 

Em nome da inteligência dos que nos vêm depois, nem precisamos comentar os classificados que se seguem. Eles falam por si, das taras, dos tempos e das transgressões. “Casada infiel. Ligue e confira!”. “Menina linda, rostinho de anjo e sorriso encantador. Uma colegial superdanada! Para maiores de 40...”. “Bruna - bela travesti brozeada para executivos”. “Tia & Sobrinha – Safadas e fogosas!”....   E como possível cura às frustrações dessas fantasias, uma nova, de certeiro homeopata: “Alberto – Resolve problemas amorosos.”

 

Os anúncios classificados, por serem comerciais, e porque vendem mercadorias, bem que poderiam ser lidos como um espelho invertido de desejos. De casas, de carros, de apartamentos, de objetos, de emprego, de sexo e de amor. De sonhos, de altos e baixos sonhos, do sublime e de quinquilharias. Feira da selva que legamos.

 

 

(Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3950)

 

 

 



Escrito por urariano às 10h26
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