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NO AR, A LITERATURA

 

Urariano Mota

 

 

No começo de nossa reunião, percebemos que para o nosso programa faltavam somente o Nome, Vinheta, Slogans, Chamadas, Conteúdo. Somente isso, não faltava mais nada.

 

O nome era fácil. Era importante que ele aliasse a cultura de Pernambuco a um conteúdo de literatura. Simples, não? Depois de duas horas à procura de um nome, anotamos: Vou danado pra Pernambuco, “Danou-se, é literatura”, Céu de letras, 30 copos de chope, “Literatura, ocupa o teu posto”, Arrecife das Letras, Bar Savoy, A palavra fala, No passo das letras, A palavra, Hora literária, Canto das letras, Encanto das letras, “Letras, palavras, folhas e livros”, Pernambucanto, Pernambuco das letras, Ondas de letras, e antes que alguém pensasse em Letras radioativas, paramos. Céu de letras sumiu, caiu por gravidade e morreu, sem nenhuma lágrima. Bar Savoy não podia ser porque o dono, o português, ia cobrar pelo uso do nome. E por isso achamos menos ruim o “No passo das letras”, porque o passo é a dança do frevo, e paço, com cedilha, é palácio.

 

Achado o nome, a vinheta seria mais fácil ainda, porque ela ia casar certinho com o programa. Por isso, acertamos que o ideal seria um frevo, e se possível, e coubesse, um som de maracatu de baque virado. Daí que ficamos nisso, de tão fácil, e para isso deveríamos procurar a fácil solução para depois da reunião. Daí que eu, por minha conta e risco, pesquisei em casa e descobri que nada mais próprio que o solo de Felinho, somente o trecho do solo, na sua primeira aparição e penúltima, em Vassourinhas. Só o sax de Felinho.

 

Com a vinheta, pensamos nas chamadas, no slogan. Era fundamental que se expressasse uma coisa rara nesse programa, e que se anunciasse a seguinte novidade: essa era a primeira vez que um programa de literatura, no rádio, não bastasse tamanha raridade, era feito por escritores. Até então tivemos jornalistas, professores, comunicadores falando sobre escritores ou sobre literatura, isso quando falavam. Desta vez, não. Daí que amadurecemos e fomos para as seguintes palavras: “A literatura mostrada por quem faz”, ou então, “Um programa de literatura por quem faz literatura”. Ou ainda: “No passo da literatura. Um programa de escritores”. A que poderíamos acrescentar, em uma pausa de Felinho no sax: “A literatura de hoje, de nossa terra, para todas as terras”.

 

O conteúdo então, dissemos nós, é mais fácil ainda. A razão? Todos sabemos o que queremos, e como sabemos o que queremos, nem precisamos pensar muito. É só anotar. Cai do céu. Então, após alguma discussão e dispersões para um tema tão fácil, conseguimos algum consenso, uma bandeira comum: o conteúdo tem que ser gostoso e sério. Ótimo. E mais: que mexa com corações e mentes, expressão que alguma vez ouvimos em algum lugar. Daí pensamos que devíamos divulgar os CDs dos poetas locais, como atrações e pausas na falação. Divulgar recitais, palestras, eventos. Os sites e blogs da cena literária. É interessante observar – anotamos com muita ênfase - que teremos de ligar a poesia e a prosa de hoje à prosa e poesia dos nossos clássicos. Isso entra como uma formação de gosto do ouvinte. É como uma homenagem e uma filiação do que fazemos ao que de melhor se fez antes. Crônicas de Antonio Maria, de Dom Hélder, de Renato Campos, de Hermilo Borba Filho, de Manuel Bandeira. Leituras e gravações de poemas de João Cabral, de Carlos Pena, de Joaquim Cardozo, de Mauro Mota. 

 

De um ponto vista físico, técnico, de tempo, o programa será semanal, de uma hora, dividido em 3 blocos. Sábados às 5 da tarde, ou sextas-feiras, à tarde. Nunca aos domingos. E acordamos por fim que o primeiro programa será todo dedicado ao poeta Alberto da Cunha Melo.        

 

Seria. Com tão bons propósitos e ideais, esse programa jamais entrou no ar.

 

 

(No Direto da Redação em http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3936)



Escrito por urariano às 10h12
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