
Para Carlinhos Bala
Um craque na torcida
Urariano Mota
O jogo do Sport contra o Vasco, daqui a pouco em São Januário, me faz lembrar que o melhor lugar, para eu defender o glorioso Sport Club do Recife, é na torcida. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu poderia ser jogador de futebol.
Em 1958, quando o Brasil foi campeão na Suécia, ganhei de presente uma bola de borracha. Na minha vizinhança, todos os meninos jogávamos então com bola de meia. Por isso orgulhoso me dirigi para a rua. Nesse dia eu era a própria seleção, mais que Didi, Pelé, Vavá, aqueles que bailaram lá na Europa, porque eu era esse grau supremo, acredito que em todas as nações do planeta, a maior autoridade e espetáculo, o dono da bola.
Os meninos me cercaram, lembro bem. E eu, em lugar de abarcar sozinho o troféu, orgulhoso, dizia-lhes, olhem, e eles, com sede, mais que olhavam, executavam malabarismos com a minha bola, para me assegurar, aduladores, que bola como aquela no mundo inteiro não havia. Eu acreditava, diria mesmo, todos acreditávamos, até mesmo os pérfidos aduladores. Bola e dono da bola, como nós, no mundo inteiro não havia. Disso vocês também terão a certeza. O fato é que, terminada a corte, para melhor encantamento, decidimos jogar. Sim, para que desejávamos uma bola? Para exibi-la e recolhê-la depois? Definitivamente não.
Pois bem, resolvemos jogar. Era um costume então entre os meninos, não sei se perdura até hoje, o que chamávamos de “tirar o time”. Ou seja, os líderes naturais dos meninos, que podiam ser os melhores jogadores, ou os mais ricos, os menos miseráveis, os mais fortes, ou os mais valentes, escolhiam aqueles que iriam jogar em seu time. Assim estabelecidos, os líderes escolhiam, com um risco no chão, na terra do campo, os dois times, com a frase, com o mantra:
- Esse é meu.
- Esse é teu....
Quando ocorria de um bom jogador ser disputado por ambos os líderes, oferecia-se um menino ruim, como um jogador a mais ao time que ficava sem um Pelé. Compensavam.
- Nego.
- Nego é meu!
- Você pode ficar com Dirico a mais.
- Essa ruindade eu não quero.
- Dirico é ruim, é? Ele sabe marcar, ele não deixa ninguém jogar.
- Então fica com ele!
- Tu só pensa em ganhar.... Pode vir, Dirico.
Os excluídos, assim incluídos, faziam ponto de honra em transformar a sua desonrosa escalação em vitória do time que o abrigava. De preferência, derrubando, de todas as formas e maneiras, o Nego. Mas como eu não me chamava Dirico, porque eu era o titular absoluto da seleção nesse dia, deixei-me acompanhar sonolento, entediado, a escalação dos dois grandes times:
- Esse é meu...
- Esse é teu...
- Pronto. Vamos jogar.
Então eu, o sonolento, ainda meio tonto, acordei.
- E eu? Em que time eu jogo?
Então o mais sábio, o mais inteligente e sabido líder, com ar de negociador norte-americano em terras de petróleo, me disse, com voz terna, aveludada e conciliadora:
- Depois. Isto de agora é só um treino. No jogo mesmo tu entra.
Então jogaram. E eu, que não era Dirico, porque de maneira nenhuma poderia ser oferecido como uma compensação, naquele augusta hora, durante bons 60 minutos, assisti ao treino do jogo que viria. E como tudo tem um fim, para desgraça ou graça o treino acabou. E desta vez foi a minha vez de me acercar dos líderes:
- Agora vamos jogar.
- Olha, já é meio-dia. Amanhã tem mais. Vamos, turma?
E me devolveram o troféu, o meu presente, a minha bola. Honestos, na devolução. Ficamos então a mirar, sem acreditar no que víamos, sentados no chão para não cair, eu e a minha bola. Por isso digo e escrevo, sem muito orgulho, que a César o que é de César, e a Tostão o que é de Tostão. Porque nesse particular de jogo sem bola, em 1958 eu sou e fui o pioneiro, por me antecipar ao craque no México em 1970. Ninguém, nenhum dono da bola jamais jogou sem bola como este que lhes fala.
Somente espero que na torcida hoje eu tenha melhor pé-quente.
(Escrito e publicado antes do jogo, em 28.5.2008, no Direto da Redação http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3926 . O que não consegui em campo, consegui na torcida: Sport 5 X Vasco 4, nos pênaltis)
Escrito por urariano às 11h50
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|