
O prêmio de Paulinho da Viola
Urariano Mota
As notícias da imprensa que mostram Paulinho da Viola como o grande favorito do Prêmio Tim deste ano, com 7 indicações, longe estão de um exagero ou de conta de mentiroso. O disco “Acústico MTV”, que acena para ele com sete categorias de prêmio, eu já ouvi tanto, nos últimos 6 meses, que sei o repertório inteiro, as deixas, o coro (ali está Cristina Buarque), os créditos e todas as imagens, ainda que não o tenha agora para ver e ouvir.
Essa consagração somente para os que são ruins da cabeça ou doentes do pé causa espanto. Para nós, que o acompanhamos desde 1970, ocorre perguntar, “por que demorou tanto?”. E para ser gentil ante a longuíssima letargia, preferimos recuperamos aqui algumas linhas do escrito sobre ele há cinco anos.
Paulinho da Viola é uma soma de gerações de compositores da velha guarda do samba. Uma reencarnação de sambistas que se foram, se por reencarnação compreendemos as folhas secas que ressurgem no verde, folhas secas que se fizessem azuis, vermelhas,brancas, negras, e se por reencarnação compreendemos as gerações que voltam reiventadas, algo como um 1920 mudado em 2020, como um 12 mudado para um certo 21, ou: como se Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Batista, Nelson Sargento, Candeia, sem deixarem de ser eles mesmos fossem um outro, que vem a ser um compositor nascido hoje. Uma alma dessa gente renascida.
Mas falar de um compositor de música somente com palavras não é fala precisa, seta na mosca. Porque dizer que ele faz de composições da Velha Guarda composições suas, ou dizer que ele busca na Velha Guarda a própria voz cantada antes, não seria claro e preciso para quem simplesmente nos lê sem a experiência e a felicidade da música de Paulinho. Façamos então um pacto com o mais simples: falemos do tempo de Paulinho da Viola refletido em instantes de 2 linhas de nossa vida mesma.
Quando surgiu “Foi um rio que passou em minha vida”, éramos estudantes numa sexta-feira à noite, numa serenata em Maria Farinha. Achávamos então que a revolução socialista seria a coisa mais natural do mundo. E por ser assim tão natural, nada demais também que ouvíssemos, não se espantem, 41 vezes, seguidas, contínua e incansavelmente foi um rio, foi um rio, foi um rio... . Naquele ano, todos nós éramos Paulinho, nessa estranha empatia, mistura de identidades que a verdadeira arte produz. Todos nós repetíamos, “meu coração tem mania de amor, e amor não é fácil de achar”. À maneira de cantar, gritávamos esses versos então.
Depois, morando na Pensão Princesa Isabel, Paulinho era Simplesmente Maria. “Na cidade, é a vida cheia de surpresa, é a ida e a vinda, simplesmente, Maria, Maria, teu filho está sorrindo, faz dele a tua ida, teu consolo e teu destino, Maria...”. Nesse tempo, sempre compreendíamos o “faz dele a tua ida” como um “faz dele a tua ira”. Enquanto subíamos a escada para um quartinho isolado no alto, da televisão da sala vinha a música. À hora dessa música sempre esperávamos algum golpe traiçoeiro da polícia que queria nos matar.
Então houve Para um amor no Recife. Entre a repressão da ditadura Médici e a resistência erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão porque mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”.
Que sorte imensa a nossa ter sobrevivido aos piores temporais para viver a maturidade de Paulinho. O que ele anunciava num Samba Curto, “só me resta seguir rumo ao futuro, certo do meu coração mais puro”, é agora atingido. Menos puro que o esperado, como é bom esse coração amadurecido pelo crisol, pela lembrança de quando o tínhamos somente dor. O grande prêmio de Paulinho da Viola é o tempo. Com ele e com todos nós.
Também no Direto da Redação em http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3907
Escrito por urariano às 16h46
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