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Sapoti da Japaranduba
 


 

O poeta que Boldrin não viu

 

Urariano Mota

 

 

Em outubro de 2007, ao trabalhar em uma antologia de poesia popular do sertão do Pajeú, descobri um senhor poeta. Adjetivo o substantivo poeta com “senhor” para atender à sua idade e também para não escrever “grande”. Grande é Dante, ensinava Manuel Bandeira. Na verdade, sendo mais preciso, descobri um belo e viçoso poema, com a mesma beleza das coisas da terra e com o viço do leite materno. Tão encantado fiquei com o tesouro, que me disse: esse homem deveria ser conhecido além de nossas fronteiras. E por isso pensei no Sr. Brasil, o programa criado à imagem e semelhança de um senhor ator, Rolando Boldrin.

 

Em 15.10.007 então, envie-lhe esta mensagem:

 

“Prezado Rolando Boldrin

 

Sou Urariano Mota, escritor e jornalista. No momento organizo, com mais três outros escritores, uma Antologia dos Poetas do Pajeú. O Pajeú é uma área do sertão de Pernambuco, berço de inúmeros poetas, cantadores e repentistas. 

Aconselhado, envio-lhe o poema  a seguir. Sem dúvida, você é a pessoa certa, pelas qualidades de ator e conhecedor da gente brasileira. Passo-lhe os breves dados do poeta e o poema. Você verá que Dickens, na Inglaterra, não escreveria com mais força”. 

 

E lhe passei primeiro a brevíssima apresentação do senhor poeta Antônio José de Lira:   

Nasceu no Sítio Goiana, Município de Itapetim, Pernambuco, em 8 de julho de 1930. Não é cantador de profissão, mas agricultor. Faz uma poesia universal, belíssima, como  “A Velha Olaria”,  uma recordação da olaria do seu pai, no Sítio Goiana”.

Depois acrescentei o poema, o leite materno, os versos que me lembravam Dickens em As Grandes Esperanças, quando o protagonista volta ao casarão arruinado onde conhecera o seu amor de infância. Mas nenhuma resposta veio, até hoje. Está certo, quero dizer, bem entendo que o apresentador e homem de teatro receba solicitações de todos os cantos, e mal consiga ler a décima parte. O dia só tem 24 horas e as tarefas são muitas, compreendo. Porém mais certo é que eu não devia ficar com essa jóia de beleza guardada.  Nem mesmo o livro onde apareceria o seu poema ainda não veio à luz. Portanto, a consciência obriga a divulgação. Quem sabe se a partir de Miami, via Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, o Brasil venha a conhecer este encanto. Com vocês

 

A VELHA OLARIA

 

Recordei o juazeiro

Sombra da velha olaria

Gigante, verde e faceiro

Enquanto o dono existia

Depois que o dono morreu

Ele também resolveu

Se entregar ao machado

Hoje nenhum mais existe

Vou recordar mas é triste

Se recordar o passado

 

O tempo ingrato passou

A mão naquela olaria

Por lembrança não ficou

Nada do que nela havia

Aterrou todo o barreiro

Sem forno e sem juazeiro

Ficou o chão diferente

Até mesmo o passarinho

Perdeu o lugar do ninho

Canta mas não é contente

 

Das telhas restam os cacos

Porque não se derreteram

Do juazeiro os cavacos

Todos desapareceram

Se existe alguma raiz

Talvez se sinta infeliz

Porque perdeu sua fronde

A lenha o fogo queimou

As folhas o vento levou

Pra guardar quem sabe aonde


Senti profunda emoção

Naquele ermo esquisito

Sem pai, sem mãe, sem jargão

Sentindo a falta do mito

Se dividiu a família

Três hoje moram em Brasília

E três em Itapetim

Quatro na eternidade

Resta somente a saudade

Morando dentro de mim

 

Voltei pra ver se do forno

Alguma coisa restava

Pelo menos o chão morno

Da lenha que pai queimava

Não vi cinzas nem carvão

Senti profunda emoção

Saí sem olhar pra trás

Notei que tudo tem fim

Jurei por Deus e por mim

Não ir ali nunca mais

 

 

Publicado no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3894

 



Escrito por urariano às 20h13
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