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Soledad no Recife em julho

 

Publicado no site Vi o Mundo, http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/soledad-no-recife-em-julho/

 

Edição, entrevista e texto:  Conceição Lemes

 

Eu a “conheci” ao ler uma coluna do jornalista e escritor pernambucano Urariano Mota, em Direto da Redação. Fascinou-me na hora. Uma jovem idealista, corajosa, doce e linda, muito linda.Foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida, depois de ser entregue ao delegado Sílvio Paranhos Fleury, traída pelo cabo Anselmo , de quem trazia um filho na barriga. O texto era tão terno, carinhoso, delicado. Confesso que me passou pela cabeça os dois terem sido namorados.   

Emocionou-me tanto a história, que, imediatamente, quis saber mais de Soledad. Daí nasceu esta conversa com Urariano, que lança, em julho, o livro “Soledad no Recife” pela editora Boitempo. Ele é autor do romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici.

 

Viomundo -- Por que Soledad? Na sua coluna, você diz que só agora teve condições de mergulhar nas entranhas daquele momento. Por quê?

Urariano Mota -- Há temas que nos perseguem, embora nem sempre a gente perceba. No meu primeiro livro, o romance “Os corações futuristas”, houve Cíntia, uma brava socialista. Já no destino trágico de Cíntia havia um destino de Soledad. A "diferença" é que Cíntia se apoiava em outra pessoa, em outra militante. Enquanto Soledad, pelo menos quero crer e me empenhei muito por isso, Soledad é a pessoa. É a própria pessoa, pelo menos desejo ter realizado isso.

Por que só agora, 36 anos depois? De um ponto de vista pessoal, estou mais apto e cônscio de minhas fronteiras. De um ponto de vista mais geral, digamos, objetivo, o crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da ditadura no Brasil. A traição que ela sofreu expressa, com vigor, a traição contra jovens do sentimento mais generoso, que é o sentimento de humanidade, do mundo. 

Viomundo -- Era tua amiga? Como ela era?

Urariano Mota -- Eu sou fundamentalmente um escritor.  Isso quer dizer, expresso minha experiência vivida, sempre. Ou em fatos biográficos, testemunhados e sofridos, ou em fatos imaginados, recompostos, ressurgidos, que são também, para a literatura, para o artista, fatos testemunhados e sofridos. Soledad não era, ela é minha amiga. Mas não trocamos palavras em sua curta vida. Este livro diz a ela, fala as palavras que não podemos trocar, no Recife da ditadura Médici.

Mais de uma pessoa, para não dizer quase todas as pessoas, pensam que Soledad foi minha namorada, que eu a conheci pessoalmente. Isso vem da narração e da forma apaixonada do relato.  Essa impressão surge, veio e vem do livro. Mais de um leitor já recebeu essa impressão. Isso se deve à mistura, em um só corpo, de pessoas e fatos absolutamente reais, documentados, sabidos, ao sentimento que tenho daqueles dias. O documento vivido pela segunda vez. Então, é claro, o elemento "ficcional" virou factual.  Como ela era, como ela é, o livro dirá. 
 
Viomundo --   É citado o massacre da chácara São Bento. Que lembrança isso traz?

Urariano Mota -- As notícias, publicadas em todo o Brasil em janeiro de 1973, dos seis "terroristas” mortos no aparelho da São Bento, são absolutamente falsas. As "notícias" de terroristas mortos, naquele tempo, eram reproduzidas com a mesma redação e teor em toda a imprensa brasileira. Vinham da agência de segurança nacional. Jamais houve o “massacre da chácara São Bento”. Houve a execução fria, planejada, de seis bravos militantes. A chácara foi o teatrinho criado para a execução de seis bravos.

Soledad Barret Viedma e Pauline Reichstul – há testemunho público disso - foram assaltadas em uma butique no Recife, de surpresa espancadas sob pistolas e seqüestradas. Em uma mangueira, por trás da butique, a proprietária notou depois sangue, vômito e urina. Isso de modo público, à vista de todos. Jarbas Pereira Marques, outro militante, que aparece entre os terroristas da chácara, foi retirado da livraria onde trabalhava, à luz do dia.
Digo isso no livro, e repito aqui: em uma ditadura, até as datas dos jornais são falsas. 
 
Viomundo -- Soledad foi traída pelo cabo Anselmo, que a delatou ao delegado Fleury. Você conheceu o cabo Anselmo? O que  sente por ele?

 
Urariano Mota -- Eu estudo o seu caráter há muitos e muitos anos. Ele é objeto de minha permanente observação e pesquisa. No entanto, jamais vi na rua o cabo Anselmo. Eu o conheço por seus cadáveres, que ele arrasta como uma cauda. Fui, sou amigo de quem ele perseguiu, traiu e matou.

Ninguém podia imaginar que ele fosse uma infiltração. Anselmo pertence à família dos agentes duplos, dos instrumentos de política que se chamam espiões. Isso quer dizer: ele é um mundo de mentiras. Ele era e é um sistema em que mentiras armam mentiras, que constroem mentiras, sempre. Isso quer dizer, enfim, que tudo quanto esse instrumento dizia e disser, falar, deve ser posto sob absoluta desconfiança, porque ele mente por sistema, por hábito, por defesa, por ataque e natureza. Não se pode acreditar em uma só das suas palavras. Quando ele diz eu amo, eu respeito, o bom senso deve traduzir de imediato, ele odeia e despreza.

Sou de opinião que não importa o seu último nome. Porque ele não tem outro nome nem outra face. Jonas, Daniel, José, com barba, sem barba, magro, gordo, com novos olhos, novas orelhas, novo nariz, nova boca, não importa. Ele será sempre, para onde for, cabo Anselmo, aquele que gerou a morte da sua companheira, que trazia um filho no ventre.

Viomundo -- Soledad morreu jovem, linda. Se ela vivesse no Brasil de hoje, o que estaria fazendo Soledad, em quem votaria, o que a preocuparia? 
 
Urariano Mota -- É a pergunta mais difícil. Mas sei, ou posso ter a esperança de que ela estaria no movimento socialista, com um apoio crítico ao governo Lula. Continuaria linda, pelo fogo que tomava o seu corpo e sua vida, que não se apaga, não arrefece, apenas fica mais maturado. Como um vinho decantado que embriaga melhor.

Para ela, viva neste 2009, digo o que escrevi no livro:

Soledad não é só a mulher bonita, de um ponto de vista físico, cuja fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel do seu peito dinâmico, e de tal modo que dará ao fotógrafo o que se diz de um mau desenhista, “isto não se parece com ela, não saiu parecido”. E se pedirá então ao fotógrafo o absurdo, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, poderoso em nos despertar amor, afeição, paixão, tar a e paz, que buscamos como a uma miragem. Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser inalcançado na fotografia, se comparamos, se transpomos mal, imagine-se então Soledad no lugar dessa flor do campo. Imaginamos mal e mau, já vêem. Flor não se rebela nem canta. Flor nos desperta canção e rebeldia, quando machucada. Mas a pessoa de Soledad, ainda que lembre essa flor - e é irrecusável não lhe ver a pele como o tecido de uma pétala -, e assim a lembraremos pelo vento forte e traiçoeiro que se prepara para a muchucar e destruir, ainda assim, como a superar tal associação, ainda que nos persiga como só uma idéia é capaz de perseguir, hoje, neste dia do seu aniversário, ela está mais bela que antes.

 ¡Arriba, Sol!
 


Como aperitivo, encante-se com mais estes dois momentos de"Soledad no Recife"

Primeira vez em que Urariano fala de Soledad no livro

Eu a vi primeiro numa noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Num lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, “alienado”, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O anjo exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente – diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade.


A morte de Soledad

Chegamos agora mais perto de Soledad Barret Viedma. Excluo-me, na medida do possível, da qualidade daquele que a amou em silêncio. 

Há quem considere que a morte de Soledad, nas circunstâncias que conhecemos mais tarde, deu-se em razão de sua ternura. Isso é mais que um namoro, um interlúdio, para dizer que ela esculpiu a própria sorte, porque, diabo, era terna e verdadeira. Com a evidência de um escândalo. Prenhe de ternura até as raias do suicídio. Esse elogio torto, digno da reencarnação e pele de um Anselmo 2, é como um açúcar no sal de sua execução. Um doce, um mel, a lhe correr sobre os lábios entre coices, descargas elétricas e afogamentos. Conviria melhor ser dito que ela, por suas qualidades raras de pessoa, estava condenada.

 



Escrito por urariano às 08h51
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SOLEDAD  NO RECIFE

 

Este artigo foi publicado no suplemento cultural Correo Semanal, do jornal Última Hora, do Paraguai, no sábado 20 de junho de 2009. Para quem puder acessá-lo em PDF, verá uma foto inédita de Soledad Barret Viedma, que revoluciona até os peitos de pedra.  

 

 

El regreso de Soledad Barrett

 

Andrés Colmán Gutiérerz *

 

 

 
 

Era tan dulce y hermosa que hubiera llegado a ser "Miss Paraguay, carátula, almanaque", dice el poeta Mario Benedetti. Pero la sangre de su abuelo, el gran periodista, escritor y luchador anarquista Rafael Barrett, la tironeaba desde las raíces, conduciéndola a un destino de entrega a la lucha social y política, que forjó su corta, heroica y trágica historia.

Poco se sabe de Soledad Barrett Viedma, nacida el 6 de enero de 1945, hija de Alejandro Rafael Barrett López, único hijo del recordado autor de El dolor paraguayo. En Sâo Paulo hay una escuela y en Río de Janeiro una calle que llevan su nombre, pero en el Paraguay su historia es aún desconocida, apenas fragmentos filtrados a través del clásico poema de Benedetti y la canción de su compatriota uruguayo Daniel Viglietti.

Ahora, Soledad Barrett es rescatada por el novelista brasileño Urariano Mota, quien la conoció personalmente en su Recife natal, y vivió de cerca su trágico fin, cuando, luego de haber militado en organizaciones de la izquierda uruguaya, llegó hasta el Nordeste del Brasil, en 1971, para unirse a filas de la Vanguardia Popular Revolucionaria (VPR), la legendaria guerrilla brasileña, liderada por el capitán Carlos Lamarca, en la lucha por derrocar a la dictadura militar del vecino país.

Soledad en Recife es el título del libro que publicará la Editorial Boitempo, en julio. Se trata de una novela de no-ficción o reportaje novelado, que recrea la valiente entrega de la joven paraguaya a la lucha revolucionaria, y cómo acabó entregada a los represores por su propio amante, el supuesto guerrillero Daniel, quien en realidad era "el cabo Anselmo", un doble agente de la dictadura.

Urariano Mota, nacido en Recife y residente en Olinda, es autor de la consagrada novela Os coraçôes futuristas, que retrata los sombríos años de la dictadura Médici en el Nordeste brasileño, en los años 70.

"Soledad Barrett marcó profundamente mi juventud, cuando la vi en mi ciudad, en 1973. Después de su muerte, tomé conocimiento de tres grandes crímenes: a) su propia y vil ejecución; b) la traición del cabo Anselmo, su propio esposo; c) la muerte de un amigo mío entre los seis ?terroristas' que fueron exterminados con ella", relata el escritor al Correo Semanal.

"Yo tengo por Soledad Barrett amor y admiración, como el libro lo narra en voz más alta que esta declaración", afirma Urariano Mota, acerca de su nueva obra.

"Esta admiración se extiende a su abuelo, el gran Rafael Barrett, escritor olvidado fuera del Paraguay. Así como lo menciono en el libro, Rafael Barrett transmitió a Soledad no solamente la sangre, la herencia de caracteres, sino que él fue su inspiración y su influencia hasta la trágica muerte", declara el novelista.

Eran años de dictadura y terror. También de lucha revolucionaria y amor. Soledad tenía 25 años de edad cuando perdió a su esposo, el brasileño José María Ferreira de Araújo, capturado y asesinado por los militares, en 1970.

En el fragor de la lucha se reencontró con Daniel, antiguo compañero de José María, a quien había conocido en Cuba. Era un militar que lideró la "revuelta de los marineros", en 1964, contra el Gobierno de João Goulart, y se había convertido en héroe para los guerrilleros. Pero la dictadura lo había captado como agente y tenía la misión de delatar a sus compañeros.

Soledad halló en él a un nuevo compañero, sin desconfiar que lo iba a traicionar. La paraguaya estaba embarazada de 5 meses, cuando el padre de su bebé la entregó a los militares, junto con otros cinco miembros de la VPR, el 8 de enero de 1973. Fueron secuestrados y salvajemente torturados hasta la muerte, en una granja de las afueras de Recife, en el caso conocido como "A masacre da chácara de São Bento".

A pocos días de haber cumplido 28 años de edad, la revolucionaria nieta del gran Rafael Barrett acabó su vida de manera violenta, para ser recordada por los versos de Mario Benedetti: "Soledad, no moriste en soledad, por eso tu muerte no se llora, simplemente la izamos en el aire...".

Treinta y seis años después, la guerrillera paraguaya Soledad Barrett vuelve a vivir, gracias a la pluma de un apasionado escritor brasileño.

El escritor brasileño Urariano Mota publica en julio su libro Soledad en Recife, que rescata la heroica y trágica historia de la luchadora y guerrillera paraguaya, nieta del gran Rafael Barrett.


* Periodista, escritor, guionista. Publicó las novelas "El último vuelo del pájaro campana" (1995, Premio de Narrativa El Lector, reeditada en 2007), "El país en una plaza" (2004), el album de cómic "Mediodía en la tierra de nadie (El asesinato del periodista Santiago Leguizamón)" (2006) y el libro de cuentos "El Principito en la Plaza Uruguaya". Recibió el Premio Vladimir Herzog (Brasil, 1985) y el Premio Nacional de Periodismo Santiago Leguizamón (Paraguay, 2000). Es periodista del diario Ultima Hora. Director de Libertad de Expresión del Foro de Periodistas Paraguayos (Fopep).






Escrito por urariano às 14h24
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A hora de Soledad Barret Viedma

 

Urariano Mota

 

 

Amigos, aquilo que há muitos e muitos anos eu sentia  por todos os  poros e sentidos, aquilo que meu faro pressentia, que a hora de Soledad Barret Viedma se acercava, agora chegou. Em julho, a  Boitempo Editorial publica o meu, o nosso livro,  “Soledad no Recife”.

 

Para quem não sabe, Soledad Barret Viedma foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida e traída, depois de entregue a Fleury pela marido, o Cabo Anselmo. 

Um dos leitores de Soledad no Recife assim se expressou:

 

“O livro alcança e fere vários tipos de leitores, desde os que já conhecem a história do ‘massacre da chácara São Bento’ até os que a desconheçam totalmente.

 

É um relato candente, comovido e comovente, construído desde um ponto de vista original, qual seja, o de uma voz narrativa pertencente a quem tenha conhecido os dois protagonistas históricos da trama, Daniel, aliás, Cabo Anselmo (ou será o contrário?), e Soledad, a jovem idealista assassinada, com os demais companheiros. O relato recupera um clima de época através das letras de música com muita habilidade.

 

É um relato testemunhal, no sentido bíblico da palavra, e ao mesmo tempo confessional. É testemunhal porque visa dar testemunho, contar uma verdade, trazer à luz fato que revela e elucida”.

 

Portanto, amigos, não foi em vão esperar tanto tempo.

 

“Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a ela só por prêmio pretendia....   

 

... Dizendo: - Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida”.

 

A bela e brava Soledad Barret Viedma volta à vida em julho. Em todas as livrarias.



Escrito por urariano às 10h26
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BOLSONARO: CUIDADO, MORDE

 

Urariano Mota

 

O deputado federal Jair Bolsonaro, do PP do Rio, já vai no quarto mandato. Do seu perfil na Câmara Federal, podemos ver as qualificações:

"Formação de Oficiais, AMAN, Resende, RJ, 1977. Pára-Quedismo Militar, Brigada Pára-Quedista, Rio de Janeiro, RJ, 1977; Educação Física, Esc. de Educação Física do Exército, Rio de Janeiro, RJ; Mestre em Saltos, Brigada Pára-Quedista, Rio de Janeiro, RJ, 1983; Mergulho Autônomo, Corpo de Bombeiros, Rio de Janeiro, RJ, 1985; Aperfeiçoamento de Oficiais, ESAO, Rio de Janeiro, 1987".

Como veem, para as altas funções de legislador, o deputado é ótimo para dar saltos, mergulhar, cair sobre um alvo e dar tiro. (Já entre os companheiros de quartel no Rio de Janeiro, era conhecido como "cavalão".) Com efeito, entre seus últimos discursos, no dia 2 de abril registra-se que saudou o Exército brasileiro ao ensejo dos 45 anos do golpe militar ocorrido no País. Que lembrou as manchetes jornalísticas publicadas por ocasião do regime militar. E que listou os crimes cometidos pela Sra. Dilma Rousseff durante a resistência ao regime. E, se temos paciência para encontrar algo mais relevante do deputado, seremos informados de que discursou para lembrar os 35 anos da inauguração da Ponte Rio—Niterói.

 

A pesquisa sobre o nobre deputado, no entanto, verá coisas bem mais perigosas. Os dados formam um verdadeiro prontuário. A começar pela entrevista è revista Istoé Gente:

"A polícia agiu corretamente no Carandiru?

- Continuo achando que perdeu-se a oportunidade de matar mil lá dentro. Pena de morte deve ser aplicada para qualquer crime premeditado.

Isto inclui tráfico de droga?

- Aí é outra história, aí eu defendo a tortura. A pena de morte vai inibir o crime. Nunca vi alguém executado na cadeira elétrica voltar a matar alguém. É um a menos.

Em que outras situações o senhor defende a tortura?

- Um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem que ser colocado no pau-de-arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso. É pau-de-arara, porrada. Para seqüestrador, a mesma coisa. O objetivo é fazer o cara abrir a boca. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico.

E a tortura praticada pela ditadura militar?

- Admito que houve alguns abusos do regime militar, mas a tortura não foi em cima de um simples preso político. Aquelas pessoas estavam armadas e matavam. Só na Guerrilha do Araguaia perdemos 16 militares."

E mais. Com os manifestantes do Grupo Tortura Nunca Mais e da União Nacional dos Estudantes (UNE), que protestavam em frente ao Clube Militar, ele rosnou: "O grande erro foi ter torturado e não matado". E, virando-se para os familiares de mortos e desaparecidos, gritou: "Fodam-se!". Em plenário, aos berros, já chamou o Ministro da Justiça de "terrorista mentiroso".

Como pode um tal mestre em saltos de brigada continuar impune? Uma possível explicação é que, para seus pares, ele não passa de inofensivo palhaço, de afirmações "polêmicas", típicas de militares de extrema-direita.

Mas há que se levá-lo a sério. Os fascistas sempre começam o assalto à democracia pelo ridículo, porque as pessoas civilizadas confundem o atraso com a inocência. Pois esse miliciano desequilibrado não hesitará um só momento em torturar e matar, conforme tem reiterado a quem quer que seja. Esse deputado lembra mais um vampiro, em cujo corpo os velhos dráculas do regime ressuscitam. Para um indivíduo tão perigoso, há uma letargia até mesmo de deputados de partidos de esquerda. Mas que agora pode ser rompida, a partir de uma queixa formal, feita à presidência da Câmara. Nestes termos:

"Pela presente, o Grupo Tortura Nunca Mais/SP vem manifestar sua profunda irritação e indignação em virtude das provocações e falta de ética do deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro. O deputado federal Jair Bolsonaro tem na porta do seu gabinete um cartaz, no qual aparece um cachorro com um osso na boca e com a seguinte frase: ‘Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, quem gosta de osso é cachorro’.

As provocações de Jair Bolsonaro representam uma falta de respeito aos familiares dos mortos e desaparecidos e a todos os que lutaram e tombaram durante o regime nazimilitarista em nosso país.

O Grupo Tortura Nunca Mais/SP lamenta profundamente que as provocações desse aprendiz de nazista ocorram, exatamente, quando surgem várias denúncias sobre a ‘Operação Condor’ e quando aumentam as pressões dos movimentos sociais e órgãos internacionais para a abertura dos arquivos secretos das forças armadas e punição dos torturadores, por uma verdadeira Anistia, sem a qual jamais teremos um Estado Democrático de Direito em nosso país.

O Grupo Tortura Nunca Mais/SP considera que o deputado federal Jair Bolsonaro deveria ter seu mandato cassado por falta de decoro parlamentar.

Atenciosamente, Delson Plácido".


Com um tal prontuário de feitos, penso que a placa do gabinete de Bolsonaro poderia ser substituída pelo aviso: "Cuidado, morde".


(Publicado no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/)



Escrito por urariano às 11h54
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Mario Benedetti e o Recife

 

Urariano Mota

 

Na imprensa brasileira, as notícias sobre a morte de Mario Benedetti são lacônicas, medíocres e omissas. Peguem o google notícias em España e terão um perfil digno de um grande escritor. Já no Brasil... Uma nota do Estadão nada diz sobre o papel político da sua obra.  Na Folha de São Paulo, em linhas brevíssimas, passa-se como um gato sobre brasas, na menção às idéias de fraternidade do escritor: "Devido às suas posições políticas, Benedetti exilou-se do Uruguai por doze anos, quando o país sofreu um golpe militar, em 1973. Morou na Argentina, Cuba e Espanha e voltou ao Uruguai em 1985. Benedetti foi ainda um grande crítico da política externa dos EUA".

Pior, no G1, o espaço para a morte de Benedetti é ocupado por uma imensa foto e a informação lacônica:

"O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje em Montevidéu aos 88 anos. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar ‘Poemas de oficina’, uma de suas obras mais conhecidas. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu". Isso é mais que ridículo, é criminoso.  Para sair desse quadro, passem o olho no El País, e leiam "El poeta del compromiso". Um banho de informação.

 

Como a grande imprensa não vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses.


MORTE DE SOLEDAD BARRET

 

Mario Benedetti

 

Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade

Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva hitler nem abaixo fidel

eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo uruguai que vivia na lua

e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do íbero

agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina 

talvez nunca se saiba como nem por quê

os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar 
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente  
só em mirá-los

só em sorrir 
só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas


porém o avô rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões

soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais

soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar

desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte 
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida

ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans 
quando a rajada de pernambuco
acabou completo os teus sonhos

pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade

e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer.

 

 



Escrito por urariano às 12h12
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Treze de maio de 2009

 

Urariano Mota

 

 

No café da manhã, minha mulher lembrou que hoje é treze de maio. Não fosse a sua lembrança, eu não escreveria esta crônica.

 

Os primeiros trezes de maio, que lembro em mistura aos goles do café,  me vêm do Ginásio Ipiranga na infância. Olho para o lado agora como se nada visse, assim como os colegas negros em 1961 olhavam de lado, ou baixavam os olhos, ao ouvirem a lição lida em voz alta no livro didático:

 

"ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO - A escravidão negra foi introduzida no Brasil em 1550. Não tendo os portugueses conseguido escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar na lavoura, resolveram utilizar negros africanos nessa tarefa...". E mais adiante, todos haviam que decorar a resposta certa da pergunta no questionário: - Por que foi introduzida a escravidão negra no Brasil? - Ora, respondíamos todos, negros, brancos e mulatos, "porque os portugueses não conseguiram escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar nas lavouras". O espaço daquele aprendizado era um círculo fechado, redundante: os índios não quiseram trabalhar como escravos, daí que a solução foi importar negros da África. E, naturalmente, os negros foram escravizados porque os índios eram rebeldes. Então, para dar substância ao círculo, era ensinado que os negros vinham, mansos, passivos, cordatos, porque assim era a sua natureza, ser negro e escravo em uma só pessoa. Então os meus antigos colegas olhavam de lado.  

 

É interessante notar que no Brasil de 1961 negros eram os meninos de pele mais escura que a nossa. Negros eram os meninos de cabelo mais duro que o nosso. Negro não era uma raça, era uma cor do lápis de cor, ou a cor do grafite em toda a pele. E por isso líamos todos as lições que confirmavam a exclusão geral, como se fosse uma exclusão particular de outros, dos outros negros:

 

"A PRINCESA ISABEL ASSINA A LEI ÁUREA - ... A Regente vai lançar o nome no pergaminho, quando, em nome do povo, recebe uma caneta de ouro, cravejada de pedras preciosas. E é com a bela caneta de ouro que assina a lei que a Nação enternecida cognominou de 'áurea'. Da rua, a multidão, em altos brados, exige a presença de Isabel. E a Princesa aparece à janela, tendo ainda na mão a pena com que acabou de dar liberdade à raça negra do Brasil. Na praça inteira, o povo agita os braços festivamente, bradando em coro, em pleno delírio:

- Redentora! Redentora! Redentora!...".

 

Um dia ainda vou escrever sobre o grande mal que esse tipo de educação fez a  todos nós. Uma educação mitificadora, preconceituosa, de omissões e mentiras. Todos nós aprendíamos um Brasil sem conflitos e sem história. Aprendíamos um Brasil ideal para as sinhazinhas prendadas. Lá na sala de aula, em todos os trezes de maio, nos virávamos para os negros, para os de pele mais escura que a nossa. Os meus colegas, os meus amigos, incapazes de uma resposta plena da rebeldia dos quilombos, baixavam os olhos. Os meus irmãos de pele e coração às vezes sorriam, sorriam com o seu riso mais branco que os detergentes da televisão, sorriam só com os dentes brancos, quando ouviam, “hoje é teu dia, negão”.   

 

E com isso passávamos adiante a formação da escola burra, uma escola que passava o apagador até mesmo em nossa história familiar, com a pregação da redentora Princesa Isabel, santa Isabel, que libertara os negros do Brasil. Somente muitos anos depois, em São Paulo, vi um treze de maio diferente. Em  1978, vi um 13 de maio de negros de todas as cores, de todas as raças, que repunham em lugar da salvadora dos pobres negrinhos um orgulho e uma disposição de puxar o véu da história.

 

Mas então já não estavam ao meu lado os colegas do Ginásio Ipiranga. Aqueles, de pele mais escura, que baixavam os olhos. Eles haviam carregado para o resto de suas vidas as lições de perguntas fechadas e respostas prontas. Quem salvou os negros do Brasil? Os antigos colegas sabiam na ponta da língua. E por isso viraram médicos medíocres, funcionários  servis, engenheiros mesquinhos, indivíduos sem humanidade que mantêm distância dos negros mais pobres.

 

Vocês não sabem o quanto é bom ter chegado a este 13 de maio em 2009, agora, quando  as novas gerações sorriem e zombam da redentora, da princesa que salvou os negrinhos de alma branca. Viva este novo tempo. Do meu canto, saúdo com um cafezinho negríssimo todos os negros.

 

 

(Também no Direto da Redação, desde 13.5.2009)



Escrito por urariano às 16h36
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UM RECIFE SEM ESCRITORES

 

 

Urariano Mota

 

 A notícia corre a cidade: o Plano Municipal de Cultura do Recife aceita opiniões antes de virar lei. E quem estiver interessado em contribuir, que escreva para o vereador Osmar Ricardo, osmar.ricardo@recife.pe.gov.br. Isso até segunda-feira. Por isso me apresso em tornar pública esta mensagem, para que a caixa postal do vereador não a devolva entre tantas sugestões de maior peso. Por isso tento e atento a seguir.

Ainda que me julgue a gente toda por perdido, vendo-me tão entregue a tal cuidado, li o Plano Municipal de Cultura na esperança de vê-lo abrigar os criadores de prosa e verso. Erros meus e má fortuna em minha perdição se conjuraram, dá vontade de dizer. Mas digo, olhando bem: no Plano os escritores sumiram, se é que existem, pois raro são vistos na cultura da cidade. Parece que, com exceção de Ariano Suassuna, não há escritores no Recife. Entendam, por favor, Ariano vive sua glória com justiça, depois de toda uma vida de trabalho, criação e literatura. Mas no Recife existe só Ariano? E os outros, negros, mulatos, índios e mamelucos? Onde, em que limbo, inferno ou purgatório se encontram?

Sintam. Para um Plano de Cultura que vira Lei daqui a pouco, com valor e poder até 2019, deveríamos esperar para os escritores algo mais que um Festival Recifense de Literatura todos os anos. A não ser, claro, que os escritores estejam devida e honrosamente contemplados com "Fomento à Literatura - Realizar, anualmente, o Concurso de Prêmios Literários e publicar as coletâneas Marginal Recife, Estação Recife e Invenção Recife, que contemplam a produção poética da cidade; reforçar as publicações; estabelecer um calendário para os prêmios literários nas escolas". O recurso de copiar e colar não foi bem o que fiz agora, na citação anterior. Ele se deu, na verdade, no Plano, quando misturou um relatório de atividades da Secretaria Municipal ao que será norma nos próximos 10 anos. Mas admitamos, num ato de crença, boa fé e melhor vontade em uma só pessoa, que as coletâneas Marginal Recife, Estação Recife e Invenção Recife se rep itam ao infinito. Mas, perguntamos, para que se editar no município, se os livros não circulam, se enchem os depósitos, e de tal maneira que um dos problemas da Secretaria de Cultura é conseguir espaços para amontoar tantos livros "publicados"? Se os livros não se leem, eles, além de uma despesa inútil, são uma forma moleque de se publicar e se continuar inédito.

Mas continuemos, ó homem de pouca fé e açúcar. Pesquisamos mais no Plano e, sentimos, devíamos substituir o açúcar por algo mais dietético. Isso porque nos Programas Estratégicos , na Descentralização Cultural nada há para os escritores. O que é natural, no Recife escritor ou já é centrado ou vive a baixar em centros. Adiante. Nos Direitos Culturais, também nada vezes nada. É direito. Para quê direito à literatura? Na Promoção de Políticas de Transversalidade (que nome!), também nada. O que é natural, também entendemos. As transversais literárias sempre deixam os nossos literatos em uma encruzilhada. Ou vão para o inferno ou vagam em ruas como almas penadas. Adiante. Na Econonomia da Cultura, nada. O que é natural, isso também compreendemos. Com tanta despesa de livros publicados, de que economia reclamam os nossos poetas? Adiante. Em Cultura e Comunicação, também, já viram, nada. Quem é culto, sabe, Literatura não é comunicação, pois escritor não se comunica, vive a conversar com as musas. Muito bem. Com tantos nadas, onde poderia mesmo a Literatura entrar em um dos Eixos do Programa Estratégico do Plano Municipal de Cultura do Recife? (ufa, é um trem de nomes) Onde? Ó homem de má vontade, olhe só onde:

"FORMAÇÃO DE PÚBLICO..." Em décimo quarto lugar entre 16 ordens, aparece "...14. Desenvolver anualmente programas de incentivo à leitura, com oficinas artísticas e técnicas para crianças, jovens, adultos e idosos, realizadas em diversos locais, como escolas públicas, centros culturais, centros de reabilitação,

associações, entre outros. ". Antes que nos ocorram perguntas do gênero, por que anualmente, e não de modo permanente, todos os dias do ano?, devemos reconhecer que nesse ponto é tocada a ferida. E dói, porque, também neste ponto estas linhas devem propor algo, para deixar algo razoável no lugar do vazio e ausência da literatura. Por isso propomos, ilutre relator da nova Lei Municipal de Cultura. Considerando que, no geral, descontadas as honrosas exceções

1. Professores não leem e por isso não podem transmitir um vírus que não possuem

2. Professores - sempre honrados na exceção - e alunos perderam a prática de traduzir o que leem, quando, para a inteligência

Propomos

Um programa de alfabetização massiva nas escolas públicas, e de tal modo que alcance os mestres e alunos, 360 dias do ano. E quando dizemos alfabetização, queremos dizer, que o município assuma como seu dever indeclinável a conquista dos mestres e alunos para as letras e para sua experiência insubstituível. Para maior clareza, que a Lei abrigue programa de formação de leitores que deve ser franca, despudorada e assumidamente de literatura, para os professores e alunos das escolas públicas do Recife. Que se faça uma ponte da poesia e da prosa de hoje até à prosa e poesia dos nossos clássicos. Que tal programa seja uma sedução do conhecimento, como uma formação de gosto. De Carlos Pena e João Cabral aos poetas independentes. Do romance local a Crime e Castigo e Dom Quixote. Um despertar para a empatia imensa da literatura. Um programa enfim que seja realizado por escritores, por quem vive a literatura como destino, vida ou vida.

Justificativa

Porque não é mais possível que em um projeto de Lei se fale de literatura como uma concessão, quase um pedido de desculpa entre manifestações de palco, de estrelato e público de festivais. Não é possível que se fale da literatura na Lei futura para cobrir um lapso: "Ih, esquecemos a literatura. Então põe aí, letras também..". Não é possível enfim que em uma Lei de Cultura se deseje a literatura sem escritores, esses incômodos que vivem no mundo da lua, que para nada servem, como julga a vã, imensa e resistente ignorância. Os poetas, no Plano Municipal de Cultura nem sequer são lembrados no aniversário da cidade, deste Recife que eles cantaram como a terra entre o mar e o sonho. Para este arremedo de proposta, concluindo, é próprio encerrá-la com versos de Carlos Pena Filho, que esperamos não se tornem proféticos para os escritores na Lei dos próximos dez anos:

"Recife, cruel cidade,
águia sangrenta, leão.
Ingrata para os da terra,
boa para os que não são.
Amiga dos que a maltratam,
inimiga dos que não"

 

 



Escrito por urariano às 16h47
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Augusto Boal, lembrança

 

Urariano Mota

 

Os necrológios envergonhados dos jornais se abrem hoje com o registro "Morreu na madrugada deste sábado, aos 78 anos, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal", para depois, num acréscimo, dizerem coisas como "em 1971, foi preso pelo regime militar, pelas ligações com o Partido Comunista do Brasil. Três meses depois, ao ser solto, foi para os EUA e, em seguida, para Argentina e Portugal". E as folhas mais mostram quanto mais escondem, pois fica patente o constrangimento do registro do falecimento de um homem como tu, ao mesmo tempo que mencionam, de longe, a razão do teu viver. Para os mais jovens, que leem um necrológio de tal natureza, os teus três meses de prisão podem até parecer que foram algo como uma repressão passageira, leve, pelo crime de uma ideologia clandest ina. Historinha dos mais velhos. Isso porque, nesses registros, o pano de fundo do Brasil da ditadura, o teatrinho dos tiros trocados entre terroristas e patriotas, a tortura, os a ssassinatos, a infâmia do Brasil de quando foste preso, "já passou, não é?, a dorzinha foi embora". É a isso que chamam edição, a nova edição: omitir em primeiro lugar, para depois torcer, distorcer, insinuar coisas que são veneno. Quem te mandou ser ligado a partido ilegal?

Se saímos dos jornais, e vamos para as grandes redes na web, dos provedores, recebemos a tua penúltima notícia como "Na década de 70, por estar exilado do país pela ditadura militar, difundiu seu método pela Europa. O seu trabalho pelo Teatro do Oprimido rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2008", e a tua foto, sem a substância do que eras, apenas o rosto de um coroa meio maluco, cabeleira grisalha, assanhado, camisa florida, dói na retina. A tua mais recente notícia se insere no menu de "famosidades". Estás em um menu onde Amy Winehouse desmaia no Caribe, Ivete vai homenagear a mãe em tributo ao Rei, cunhado de Britney sai do hospital. A máquina da mediocridade, do falso, do business, contra a qual tanto lutaste, tenta nivelar a tua pessoa a divertimento. Isso quando apareces, porque em outros portais nem te deram o desprezo de a gripes e porcos te misturarem.

Para te dizer adeus, como a lembrar a composição que Chico Buarque te dedicou em Meu Caro Amigo, nada melhor que um trecho da Carta do MST endereçada a ti, que a web livre divulgou há pouco: "Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta". Leio a frase e me ponho a pensar, a ruminar, em como teria sido bom se tivesses cruzado o caminho de um adolescente magro e faminto do subúrbio de Água Fria, zona norte do Recife. Sem pai, sem mãe, de patrimônio só o desejo, um dia aquele menino em 1965 quis ser ator. Sim, que mais queria, o que só queria? Ser ator de teatro, por que não? Então ele se dirigiu e procurou estímulo com um endinheirado empresário, que se dedicava ao teatro nas horas vagas.

- Seu Costa, assim, sabe?... será que o senhor, que conhece tanta gente, será que não podia me indicar para trabalhar no teatro?

 

Seu Costa em 1965 divertia-se no Teatro de Amadores de Pernambuco, lugar de classe média muito sensível naquele tempo. O novo burguês então olhou o rapazinho de cima a baixo, mediu o jovenzinho que de gente era só olhos:

 

- Você?! Você entrar para o teatro?! É o mesmo que entrar em mato sem cachorro.

 

E o adolescente de 14 anos desistiu do teatro,de amadores e profissionais para sempre. Penso agora em como teria sido bom que ele em 1965 soubesse que no teu teatro havia uma saída.

 

Ao ler a carta do MST há pouco, sinto que não poderia dizer "Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras". Eu não lavro o campo, nada sei plantar, não crio galinha, nem mesmo tenho a coragem da luta pela terra desse movimento. Mas bem posso lembrar outros oprimidos.

Lembro um artista no bar Marola, em Olinda, que pedia dinheiro como pagamento para escrever nomes de clientes em grãos de arroz. Como são eloqüentes os artistas! Como sabem simbolizar com a precisão da flecha que atinge o olho da mosca. Para comer, esse artista no Marola escrevia minúsculo em grãozinho de arroz. Era um jovem, pálido, e é interessante como o vejo vestido em túnica grega a desenhar a mediocridade de toda a gente em grãos miudinhos. Melhor que a sua arte era o orgulho da sua arte. Enquanto percorria as mesas ele era insultado. Dele zombavam os miseráveis com dinheiro na carteira:

- Se eu fosse viver disso...

- Planta arroz, dá mais futuro ...

Enquanto ouvia isto, ele e seu orgulho, albatroz ferido cantava baixinho: "Ponta de areia, ponto final, da Bahia a Minas, estrada natural. Que ligava Minas ao porto, ao mar, caminho de ferro, andar, andar".

Por isso escrevo ao fim. Em lugar da visão do teu corpo a queimar, o corpo, só o corpo, aquilo e aquele que não mais é Boal, em lugar de qualquer visão mórbida, melhor lembrar-te ressurgido, a continuar tua vida no corpo e alma desses artistas que se erguem, e no meio da humilhação continuam, apesar de tudo, a andar, andar.

 

 



Escrito por urariano às 12h02
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Ayrton Senna, 15 anos depois

 

Urariano Mota

 

 

Os famosos, quando morrem, parecem entrar numa segunda vida. A gente comum, nós, também. A diferença é que a nossa segunda vida é mais curta, esvai-se depressa, em nossa própria geração, quando não desaparece antes, meses ou um ano depois. Quem?, perguntam, e ninguém responde.

 

A segunda vida dos famosos, é claro, é a reconstrução na memória, na lenda, que os sobreviventes lhe fazem. Apagamos mágoas, críticas azedas, pés de barro dos ídolos, e eles passam a reluzir sem nódoas ou manchas, quase. Apesar da ilusão, é uma atitude muito bonita, reconhecemos. Que beleza haveria em espancar um defunto? Que dignidade existe em acusar, destratar, quem não mais se defende? Essas coisas nos vêm enquanto pensamos sobre Ayrton Senna.

 

Quando Senna morreu, estávamos eu, Francesca, Lupicínio e Luanda, no bar de Eduardo, no mercado público da Encruzilhada. Tomávamos o café da manhã, naquele domingo de primeiro de maio. Sobre uma prateleira do bar o português ligara a televisão, para que os clientes assistissem a mais uma corrida de Fórmula 1. Com sinceridade, eu lhes digo que a televisão desligada, para mim, seria bem mais emocionante. Portanto, além de objetos coloridos que ao passar na tela deixavam um zumbido de vôo de abelhas, eu nada mais via. Me concentrava no cuscuz com galinha, que o safado do português dizia ser “à lisboeta”, para enaltecer o tempero e o preço de uma galinha à brasileira.

 

Súbito, um grito. Súbito, vários gritos. Os alcoólatras das primeiras horas do dia se levantam. “Estão bêbados”, me digo, e nem sequer olho para a televisão. Mas o som chega mais alto, e me viro para ver: Eduardo se esquecera de tudo, e se plantara bem juntinho à tela, como se surdo fosse. Ele parecia querer entrar em Ímola naquele instante, procurando entrar na imagem da televisão. Os bêbados e os sóbrios e os comensais também se fecham, compactos, em pé. Então ouço, se não me falha a memória, “Senna bateu, Senna bateu ... o acidente é sério ... a cabeça dele se mexeu... ele está vivo...”, e mais adiante, “nós torcemos para que ele esteja vivo... é muito sério.... bateu a mais de 200 por hora... pelo amor de Deus, todos torcemos para que esteja vivo....”. Então eu soube que Senna havia sofrido um acidente, muito sério. Paguei a conta e saí. Notei que Eduardo nem contou o dinheiro pago.

 

As pessoas muito amadas, achamos sempre que nunca morrem. É uma luta desigual, em que a nossa derrota é certa, mas assim somos. Com o super-herói acontece o mesmo. Lembram? Se ele está amarrado em um carro, se o carro vai ao abismo, sabemos sempre que no último minuto ele se livra das cordas e se agarra num penhasco salvador. Aquele tiro fatal na têmpora resvalará pela orelha, arrancando-lhe alguns fios de cabelo, sempre. Dos males do fígado, da coluna, do câncer e de outras terríveis moléstias ele não está imune, sabemos. Mas padecer dessas coisas de toda a gente são apenas o colorido da trama, o suspense, o seu movimento. No final, esperamos, porque já sabemos, o super não morrerá no fim. O seu destino é uma vitória prévia, sempre.

 

No decorrer daquelas horas do domingo, eu e o resto da gente esperávamos mais uma vitória de Senna. Ele batera antes, outras vezes. Ele escapara milagrosamente de acidentes, para surgir em pé, em meio à poeira, imune, sem riscos, sem amasso no vinco do macacão. Era mais que um caubói, como um Clark Kent sem óculos 24 horas por dia, com um sorriso de kriptonita, Ele . “Se depender de mim, vocês, jornalistas, irão esgotar todos os adjetivos do dicionário”, dizia, entre uma corrida e outra. Acidentes ocorrem, me disse, às vezes por ordem da Marlboro, da Williams. Aquilo passava, passaria, não podia mesmo ser muito sério. As pessoas, no entanto, não descolavam os olhos da televisão. Em dúvida, até o fim. Que foi: “Ayrton Senna está morto”.

 

Nos dias depois, os que não compartilhamos do amor a corridas, a Fórmulas 1, sentimo-nos como num enterro de comparecimento obrigatório em casa de vizinho. Ou como se entrássemos num longo cortejo fúnebre, pois caíramos num engarrafamento de trânsito, numa auto-estrada. Sentindo-nos entre lágrimas, coroas de flores e sirenes do carro de bombeiros, com o caixão lá em cima, na ponta da curva que serpenteava. Olhando de lado, para os carros que se arrastavam lento, pesarosos, sentindo-nos obrigados portanto a fazer uma cara triste. As coisas mais serenas que se diziam eram: “O Brasil perdeu o seu maior ídolo”. Ou “O Brasil está órfão”. Ou, creiam, “O Brasil perdeu o seu herói”. E aí, de verdade, a morte de Ayrton Senna começou a doer.

 

Enquanto Ayrton Senna fora um excepcional corredor, ou como se disse depois da sua morte, “O melhor piloto da Fórmula 1 de todos os tempos”, o mais completo, o mais veloz, o mais mais do melhor dos adjetivos, dos corredores substantivos, todos estávamos confortáveis. O mundo é mesmo diverso, ainda bem. Se existem pessoas que não gostam de corrida de automóveis, que felicidade. Uma exposição de Goya não ficará às moscas nas horas da Fórmula 1. É uma delícia uma corrida de touros, nos desenhos, enquanto correm lá fora a  mais de 300. Zuuum, nem ouvimos. Mas o conforto começa a desaparecer quando aos vencedores das pistas querem dar o valor que creditamos à nossa humanidade. Mais, porque tudo querem: quando fazem do pódio O Valor. Mais, porque a boca e a fome não conhecem medida: quando zombam do que a sensibilidade, a educação, a história nos fez como homens. Se um grande poeta ganha 300 reais por mês, não se pense, nem muito menos se proclame que o vencedor de milhões de vezes esse salário é o gênio da raça. 

 

Naqueles primeiros dias da morte de Senna foi assim que nos sentimos. Houve muita estupidez junta proclamada. Dos mais humildes, que diziam, “Senna foi o produto mais forte que tive para vender”, aos um pouco mais enfáticos, “Senna era o Brasil que dava certo”, até chegar aos bárbaros da nossa memória, que proclamavam, “O Brasil perde o seu maior herói”. Essas coisas, a formar um séqüito, terminaram por empanar o brilho real do seu trabalho, do seu real talento, da sua real pessoa, do seu real, à margem do seu valor em dólares. Havia nele, passada  a tempestade das lágrimas, passada a rendição ao culto do espetáculo, passada a admiração por seu sucesso, havia nele uma disciplina, um método de trabalho, uma paixão pelo que fazia, que muito nos serve, a todos, corredores, sedentários, amantes das pistas ou das artes. Há nele, nesse homem que se foi aos 34 anos, um drama, ou dramas, que reclamam um criador, sim, um criador, daqueles que ganham 300 reais por mês, daquele tipo de imortal brasileiro, que é imortal porque não tem onde cair morto.

 

Somente agora, a distância de anos depois, ganhamos algo semelhante à sua frieza. Ainda que não tenhamos a sua fé. Aquela fé superpoderosa, que dizia, “Não tenho limites. Estou com 33 anos e acho que ainda tenho muito pela frente”. Nem mesmo o super-homem seria capaz de afirmar algo parecido. Clark Kent sempre soube que o excesso de exposição à kriptonita era o seu limite: matava.



Escrito por urariano às 15h03
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O camisa 12 do Sport

 

Urariano Mota

 

 

Os jornais de Pernambuco gritaram nas manchetes para a batalha da noite: O jogo da vida!  Agora vale a classificação! Uma vitória para a história! Mas não só os jornais da nossa aldeia, reconheçam. Lá no frio Sudeste, os titulares da notícia também apontaram: Sport tenta fazer história contra o Colo Colo na noite desta quarta-feira. E acrescentam: “A equipe do Sport terá um jogo de vida ou morte contra o Colo-Colo, do Chile, nesta quarta-feira às 21h50 na Ilha do Retiro”.  E, é claro, nas palavras dos jornalistas de outras cidades nada há que se compare a estas de um imparcial repórter do Recife: 

 

“O feito será histórico. Ao consegui-lo, todo e qualquer rubro-negro do Sport poderá bater no peito e dizer que seu time está entre os 16 melhores da América. O presidente Sílvio Guimarães, o capitão Durval, dona Maria José e os milhares de anônimos da geral, arquibancada e cadeiras....”.

 

É sobre esse anônimo com sua aura, calor ou magia, sem o qual nenhum time existe, que desejo falar.  Ele, o torcedor, se revelou para mim no primeiro jogo do Sport, contra o Colo Colo no Chile. Eu não fui a Santiago, mas pude ver a partida em um bar, em pé, ao longo de um  balcão em Olinda. Para terem uma idéia da importância do feito,  eu perdi, saí de um show dos Demônios da Garoa, de graça, no exato instante em que os endiabrados cantavam Iracema. Mas não perdi este retrato: no bar, todos torciam. Todos. Garçons, televisor, clientes, garrafas, copos, colheres, rua, garfos e urras. Antes do apito, um cidadão junto a mim, a quem jamais eu havia visto, começa a sua confissão sem me olhar, com os olhos fitos na tela.

 

- Meu Deus, eu devia beber um coquetel de Lexotan. (Os times vêm para o centro do campo, e por isso recebo uma cotovelada.) Pra mim, o Sport é mais importante que o amor.

 

O barulho no Caldinho da Codorna é muito grande e alto, e por isso julgo ter ouvido mal.

 

- Melhor que o amor?! Por quê?

 

- Por que transcende.

 

Mais uma vez julgo estar muito mal das ouças. Tem muita buzina lá fora, é 18 de fevereiro, estamos na semana antes do carnaval em Olinda, a tensão é imensa e, não sei por que razão, até a cerveja e a cachaça não fazem efeito, evaporam-se. Por isso, mais uma vez pergunto, achando estranha a transcendência naquele contexto:

 

- Trans-cen-de, é isso? Por que trancende?

 

E o torcedor com as mãos, como reforço da definição do trancende:

 

- Porque vai além, é muito além do amor. É o Sport.   

 

Volto para a telinha. As cores vermelha e preta cintilam, brilham, ofuscam. Há uma figura de leão em pé, a segurar um escudo nas camisas, um rumor surdo a correr todos os lugares, uma respiração suspensa e coletiva. Por Deus, então entendo bem o que é transcender. Compreendo o que o camisa 12 quis dizer. Pelo menos durante estes únicos e  inesquecíveis 90 minutos de êxtase e agonia, o Sport transcende. Então Ciro faz um gol. Sport 1 a zero. Então Ciro dá um passe para Wilson. Sport 2 a zero.  Então eu, este torcedor equilibrado, que só deixou de ver Os Demônios da Garoa, que só deixou de ouvir a música da infância

 

Iracema, eu nunca mais te vi
Iracema meu grande amor foi embora
Chorei, eu chorei de dor porque
Iracema meu grande amor foi você

 

Então eu perco a razão e grito em coro, Cazá, Cazá, Cazá, a turma é mesmo boa.... Sport, Sport, Sport. O garçom pula, a tevê grita, os carros buzinam, a noite de Olinda vira dia. O jogo termina, Sport 2 a 1. Todas as contas se pagam na maior felicidade.

 

No outro dia é que noto uma falta. Entre todos os clientes, copos, cadeiras e garrafas  havia um torcedor que não era rubro-negro. Eu fiquei sem a minha carteira. Mas aqui pra nós, pela vitória do Sport, francamente, achei barato.   

 

 

(Também no Direto da Redação, em 22.04.2009, horas antes da magnífica vitória)



Escrito por urariano às 09h10
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Da esquerda para a direita, Nena, Gleiciane e Flávia Desirée

Vida de Travesti

 

Urariano Mota

 

 

Divulgo aqui um trecho de reportagem inédita sobre o V Encontro de Travestis e Transexuais do Nordeste.

 

 

 

Dentre as muitas participantes se apresentaram ao repórter três pessoas: Nena, Flávia e Gleiciane. Se o leitor me acompanha, fará algumas descobertas. A primeira delas é que  na luta pela sobrevivência dos travestis há sinais que não notamos. Por exemplo, agitar a cabeça, jogando os cabelos longos sobre os ombros. Nas mulheres de origem biológica e definição, isso pode ser instinto de fêmea para seduzir, pura armadilha da feminilidade. Em travestis, não. É uma afronta dirigida à concorrente ou à intrusa. Marcação de terreno. “Desapareça! O que você quer?!”, gritam em silêncio com o jogar de cabelos nos ombros.                

 

A segunda descoberta é que seus nomes não são simples nomes de guerra. Os nomes são as suas pessoas. Mais, o que não podíamos sequer adivinhar: o sexo macho de nascimento, para elas, é larva. Porque a sua plenitude é ser mulher. Daí que prefiram, exijam ser chamadas sempre com todos os substantivos e adjetivos no feminino. São as travestis. As meninas. As senhoras, damas, princesas ou senhoritas. Sem a menor sombra de ridículo ou ironia. Nasceram assim e são assim, um conflito vivo.

 

Nena Patrícia é uma jovem morena, com a pele a rebentar como uma adolescente. Tem 29 anos e aparenta ter menos. Daí que se pode acreditar na idade que declara. Alimenta, como todas, o sonho de encontrar um marido, de preferência carinhoso, trabalhador, fiel. Já Gleiciane é desconfiada e esquiva como poucas. Tem 38 anos, a pele clara, e conta que vai fazer o vestibular de gastronomia. 

 

- Qual o divisor, qual o limite, de deixar de ser homossexual para ser travesti?

 

- Isso aí é uma questão de cabeça. Desde criança eu me identificava como mulher. A homossexualidade é diferente. Travesti é aquela que se veste 24 horas, que se caracteriza como mulher, que tem corpo de mulher, toma hormônio.

 

Flávia, a terceira a ser ouvida, aparenta ser a mais madura. Peço-lhe que se apresente, e cometo a indelicadeza de lhe perguntar a idade. 

 

- Sou Flávia Desirée... 38 anos.

 

- Desirée... Por que esse Desirée?

 

- É porque é um sobrenome francês, cheio assim de significação... é um sobrenome mais forte.

 

- Você fez transformações no seu corpo?

 

- Sim, fiz. Fiz transformação injetável. Eu passei do hormônio para o silicone. Eu tenho o rosto siliconado, tenho os seios siliconados, tenho os quadris siliconados. Toda feita com silicone.

 

Das três, Flávia Desirée é a que possui mais experiência. Ao lhe perguntar se já sofreu violência, ela me devolve:

 

- Qual delas? Porque eu já fui sequestrada, já fui atirada (empurrada do alto), já me levaram pra mata, pro Lixão da Muribeca, para uma praia deserta, onde me fizeram tirar a roupa... e tudo isso tanto dos marginais quanto da polícia. Em várias cidades. Rio, São Paulo, Vitória...

 

- Em qual delas a barra é mais pesada para a travesti?

 

- Rio de Janeiro e São Paulo. É pior do que o Recife. Rio e São Paulo é mais problemático. Eu não sei se era por causa da época, década de 80, mas quando eu comecei a viajar, lá as coisas eram muito mais violentas. Em São Paulo muitas travestis se jogavam, se atiravam do viaduto, quando viam o carro da polícia. Muitas se escondiam, a polícia caçava com cachorro, dava choque elétrico.

 

Volto para Nena Patrícia. Das três é a que aparenta ser a mais frágil, ou a que procura se adequar a um ideal leve, de louça, a que um vento mais bravo poderia quebrar.

 

- Em um mundo ideal, você seria travesti?

 

- Seria. Se eu renascesse, voltaria a ser travesti. É como diz Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. 

 

- Mas você tem mais dor ou delícia de ser o que é?

 

- É.... (Silêncio) É uma delícia assim, porque eu sou o que sou, a minha pessoa, a minha expressão. Acho que é mais... é muita dor, mas também não poderia ser de outra forma, porque eu não saberia me reprimir. Seria mais frustrante viver reprimida, sem me expressar.

 

No que Flávia Desirée muito discorda.

 

- Eu mesma já disse à minha mãe: “quando um dia eu morrer, eu não quero reencarnar no corpo de uma travesti mais não. Porque eu não aguento mais”. É uma vida muito sofrida, porque todo o mundo apedreja.

 

Ao fim, Desirée pede que na foto sejam evitados os seus pés. Quando a olhamos bem, descobrimos a razão. Calçando sandálias de borracha, não ficaria bem uma Desirée mostrar os pés feridos e inchados na revista.  

 

 

 

(Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/)

 



Escrito por urariano às 10h18
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A salvação pela literatura

 

Urariano Mota

 

 

Nos tempos em que pensei ser professor, sempre tentei dizer a jovens estudantes que a literatura  era fundamental na vida  de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Primeiro porque a literatura ministrada a eles, em outras aulas, destruía todo o gozo de viver. Os mestres, profissionais ou burocratas, ensinavam-lhes a anti, a literatura para antas, com listas de nomes, datas e resumos de obras, nada mais. Em segundo lugar eu não fecundava porque o valor do sentimento, o sentido de uma rosa, o cântico de amor ou o desajuste de pessoas em uma sociedade corrupta nada significava para as tarefas mais práticas, que se impunham.

 

- O que eu ganho com isso, professor?

 

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas quando o petardo de uma frase de Joaquim Nabuco ganhava a zombaria de toda a gente. Eu sorria e me punha a gaguejar coisas estapafúrdias do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

 

- O que eu ganho com isso, professor?

 

Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas a estes periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. (Há um relato sobre isso em “Histórias para adolescentes pobres”.)  Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Mas tudo bem, eu me dizia, que se dane o nome, vence a literatura.

 

No entanto, agora refletindo enquanto escrevo, descubro que ainda assim havia uma grandiosa derrota nessa vitória de extremo recurso. Eu, o professor, falhava como professor. Quero dizer, eu não acendia a chama em seus corações como um fogo de pentecostes, com o calor de que a literatura é um valor permanente, alto e tão alto que por vezes parece substituir a própria vida. Quero dizer, para ser mais preciso: eu não fazia aqueles adolescentes atirarem-se aos livros, que seriam uma casa, um céu, um amigo, uma amiga, um amor, a namorada. Os jovens se quedavam por momentos diante do relato e depois mudavam de assunto, para outra coisa mais urgente. Afinal, jovens precisam comer, vestir, beber, e pegarem em namoradas mais concretas que um soneto de Camões.

 

O professor falhava porque prática, grosseira e opressora era a onipresença do mundo das necessidades. A literatura não se inscrevia como uma prática nesse mundo. E prática aqui em dois significados: como um hábito e como uma intervenção útil, pragmática. A literatura se opunha ao mundo prático. Na visão de todos, ela era como um luxo, um caviar... mas me expresso mal, porque o luxo é desejado, o caviar é querido. Era muito pior: a literatura roubava o tempo que deveria estar empregado em outra coisa. Que coisa? Qualquer coisa, coisa qualquer. Os passatempos mais estúpidos seriam mais necessários que essa inominável que furtava energias, dinheiro e ações dignas de serem vividas.

 

- Em vez de estar lendo, você devia...

 

Então eu não mais sorria. No mais íntimo de mim eu me julgava, eu me sabia certo como um neurótico. Tudo era o contrário do que eu pensava, mas eu estava certo. Certo como um neurótico silencioso. Pois que louco eu seria a proclamar as venturas da literatura quando todas e quaisquer coisas eram mais venturosas?

 

Esta semana uma jovem míope, tímida,  com 19 anos, deu uma substância e um conforto a essa qualquer coisa,  coisa qualquer que para nada serve, que furta o tempo e deixa os seus cultores neuróticos, malucos ou esquizofrênicos. Na altura em que a mocinha atravessava um momento difícil, prestou concurso para uma bolsa de estudo na Alemanha. Pois esta semana saiu o resultado: ela foi um dos três jovens escolhidos. E por isso viaja, e por um ano terá bolsa líquida e livre de 600 euros, e mais universidade, casa e alimentação. Mas como, eu perguntei a ela, como você conseguiu, se não é uma falante de alemão? Ao que ela, em seu espírito verdadeiro, me respondeu:

 

-  Eu fui salva pela literatura. Em minha carta contei como Goethe entrou em minha vida.

 

Ah, sabem? Hoje é domingo, faz sol, tudo é luz. O neurótico aqui dedica à jovem esta crônica.   



Escrito por urariano às 11h57
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Escrevi o texto abaixo, há tempo, sob o impacto do fuzilamento de Jean Charles em Londres. Na época, publiquei-o no La Insignia. Depois, foi traduzido para a língua inglesa por um amigo irlandês. Então foi parar no Counter Punch e em um jornal trotskista de Londres. Traduzido para o espanhol, o La Jiribilla, de Cuba, publicou-o. Agora, com a homenagem a Jean Charles feita pelos músicos da dupla Pet Shop Boys, o texto volta a correr mundo. Está na Comunidade do periódico espanhol El País. Mereceu destaque no blog do Nassif. Porque o crime continua na mais cínica impunidade. 

 

Jean Charles de Menezes ou Morrer por Engano

 

Urariano Mota

 

Há várias maneiras de morrer por engano. Todas contra a própria vontade. Pensei há pouco que poderíamos morrer por engano também como fruto da nossa vontade. Por exemplo, procurar o suicídio quando nem tudo ainda está perdido. Algo como matar-nos em um processo de uma doença incurável, assim diagnosticada por erro médico. Matar-nos por ausência absoluta de esperança, quando nem todas as possibilidades foram ainda perdidas. Depois, considerei que isto seria mais propriamente um matar-se por engano. Por isso reafirmo que todas as maneiras de morrer por engano se dão contra a vontade própria.

 

Pode-se até dizer, se nos permitem um rápido aprofundamento, que há modos de morrer por engano mais e menos cruéis. E entre os menos, incluiria os equívocos de pátria. Por exemplo, um indivíduo latino, ou europeu, lutar sob a bandeira norte-americana no Iraque. E quando menos espera, o seu veículo explode. Ou então, de outra maneira, posar ao lado de Bush em sua última foto, um segundo antes. Isto é morrer por engano, mas de uma forma menos cruel, porque repentina e com um calculado risco. Ou então, de um modo mais inocente, errar-se a avenida, o restaurante, o hotel, o país, e ser jogado, de repente, em uma zona de balas, de tiros, ou de extraordinária onda gigante. Isto também é morrer por engano, de uma forma dura, como todas as mortes, mas ainda assim, se permitem uma gradação, de uma forma menos crua e cruel.

 

Dos modos mais duros e terríveis, pensamos nos sentenciados, nos condenados inocentes, nos miseráveis que fazem parte do gênero humano dos criminosos de sempre, e por isso aguardam a morte em um corredor. Mas ainda estes, até a última hora, esperam um esclarecimento último, um indulto, uma salvação de misericórdia, antes que o padre ou o pastor venha cumprir o papel de encomendá-los para o céu da execução. Por isto concluímos que poucas mortes de morrer por engano são tão cruéis e desprezíveis quanto o ser caçado como um cão. Como um cão, que digo?, caçado como uma raposa. Cercado, derrubado, imobilizado, e de olhos vítreos ver o brilho e a luz do tiro uma fração de segundo antes, antes que se lhe arrombe e arranque o cérebro.

 

O brasileiro, o cão, a raposa, esse animal híbrido, sem espécie e sem definida raça, de nome Jean Charles de Menezes morreu por engano assim, abatido com oito tiros. Morte dura e vil, que até a um cão, que até a uma raposa, que até a um coelho, seria prova de manifesta perversão e crueldade. Que dirá a um humano, perdão, Blair, perdão, Bush, perdão, súditos ingleses apavorados, que dirá a um ser assemelhado a humano? Ainda que seja natural de um país de samba e mulatas exóticas, boas para a cama e para o turismo, ainda assim, e apesar disso, será que esse inferior mereceria um fim de animal raivoso em Londres?

 

Nada de nacional, nada de nacionalismo, compreendam. Longe de nós a intenção de exigir, que digo, de reclamar, sorry, queremos dizer, de suplicar em voz baixa, humilde, um tratamento diferente para brasileiros. Até porque as primeiras notícias divulgaram que havia sido morto um asiático. Ah, bom, se é um asiático, o mundo não treme, suspiravam todos os nacionalismos de olhos bons, os do ocidente. Assim diziam porque o terrorista morto tinha uns olhinhos meio apertados, meio amendoados, que são um primeiro sinal de um mundo exótico, secundário, sem importância, para lá do Oriente. Depois, surprise, viram que do caldeirão de misturas do Brasil também se exportam bombas de olhinhos puxados, à chinesa, a povos indígenas da américa. Depois, shit, viram que no solo do metrô aquela massa inerte, antes alegre, que batia samba e sorria para as fotos da família, mamãe, venci na europa, depois viram que aquela mula sem cabeça nem mesmo era um terrorista. Sorry, what a pity, ladies, dogs and gentlemen.

 

Nada de nacionalismo, portanto. Sabemos todos que os ingleses não tratam assim a seus cachorros. Não existe no mundo povo que mais ame a esses pops, pups, todos, até prova em contrário, cachorrinhos animais de estimação. Que graça possuem a passear com os seus melhores amigos puxados por correntes nas ruas de Londres! Quanto amor, dizem até, os maldosos, quanto afeto dedicado a um semelhante. Não, a humanidade inglesa não trata assim a cachorros. Se existe uma voz de comando para matar, para atirar na cabeça de seres que se movem, essa ordem não será contra cães. É para algo muito baixo e nocivo, menos, muito menos que dogs, embora ande (simule andar), fale (simule a fala), pense (simule o pensar) e sorri (simule o sorrir). Um algo que o terror chama de terrorista. Ah, bom, sendo assim está certo. O terrorismo contra o terror. Ou o terror contra o terrorismo. Não se sabe. A ordem dos conceitos ainda não é certa.

 

Mas uma coisa se sabe, uma coisa é clara, límpida, objetiva, e sem qualquer zona ou sombra de dúvida. O terrorista tem cara. O terrorista tem raça. O terrorista tem nacionalidade. O terrorista tem credo, língua, classe e região. A cabeça mais que digna de ser explodida a tiros já está determinada. O terrorista somos nós, povos do terceiro mundo. O terrorista somos nós, muçulmanos. O terrorista somos nós, asiáticos. O terrorista somos nós, negros, mestiços, latinos e assemelhados. O terrorista somos todos não nascidos com os caracteres identificáveis na massa de cães e de hooligans. A nossa cabeça é o alvo, e quanto mais escura mais será o alvo, a mira, o fim. A nossa cabeça é Jean Charles de Menezes.

Quando li o relato de uma testemunha do assassinato de Jean Charles, que compreendeu os olhos do homem imobilizado no chão, depois, pelas fotos…

“Se você olhar as fotos, os olhos dele pareciam ser pequenos, mas, quando vi o rosto dele por apenas um segundo, porque foi tudo muito rápido, os olhos dele estavam bem, bem abertos. Ele parecia muito, muito assustado” que,

quando viu esse relato, meu estômago sentiu um soco. Os olhinhos pequenos que se abriam espantados, com uma pistola apontada contra a sua cabeça, eram os meus, os nossos, dos nossos filhos, irmãos, de todos os povos não britânicos. Os olhinhos asiáticos de todos nós, terroristas.

 

 



Escrito por urariano às 10h22
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Garçom, procura-se

 

Urariano Mota

 

 

“Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família”.

 

 

Brasília Teimosa é um bairro do Recife que sempre lembrou paradoxos. Nascida na Zona Sul da cidade, em terras valorizadas, foi construída por invasões de pescadores, sem teto e demais pessoas pobres. Tendo o nome de Brasília, adaptou a sua arquitetura pelo adjetivo, Teimosa, porque jamais seus casebres foram as linhas curvas de Niemeyer. Eram, antes, linhas de fuga, para que os moradores fugissem das prisões da polícia. Hoje, a  Brasília Teimosa está urbanizada, tem a praia repleta de beleza e restaurantes. Antigos moradores que moravam em palafitas, a realizar o ciclo de Josué de Castro, caranguejo comido pelo homem vira fezes que alimentam caranguejo, estão agora em conjuntos habitacionais. Mas Brasilia Teimosa continua a ser mãe e pátria de paradoxais caranguejos.   

 

O último deles foi a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos ao semanário onde o Brasil é uma pauta. Nela, na entrevista, na revista e pauta, foi mencionado um garçom que de posse de duas Bolsas Família desistira de trabalhar. Isso porque, é claro, estaria em melhor situação, como se estivesse a cantar em redes ao balanço, “pois vivo na malandragem, e vida melhor não há”. Com o breque: não sei o que será. Então por isso fui. Fui a campo, ao mangue,  à praia, a Brasília Teimosa, ao vizinho bairro do Pina, à procura dos bares frequentados pelo senador nos “últimos 30 anos”.   

 

A lógica era primária. Antes do garçom, havia que localizar o restaurante em Brasília Teimosa, onde antes de se balançar em redes, a cantarolar sambas, ele trabalhava. Acreditem, no bairro e vizinhança fui aos seis maiores restaurantes, lugares de assento do senador. Insatisfeito, fui a mais dois médios, onde ele nos últimos tempos poderia ter passado. E a dois próximos de restaurantes médios, onde ele, talvez quem sabe, num lapso pudesse ter acenado de passagem.   Não lhes posso dizer os nomes – não me autorizaram – mas bem posso lhes adiantar a experiência vivida em três horas da missão “procura-se o garçom de Jarbas Vasconcelos”.

 

Manda a experiência, que antes de chegar ao local do crime o repórter pesquise,  pergunte às pessoas invisíveis, mas que tudo veem. Por isso antes de entrar no primeiro, perguntei a duas senhoras idosas, uma delas moradora do bairro há mais de 40 anos. Ou seja, 10 antes de Jarbas Vasconcelos começar a beber e comer nas redondezas.

 

- Boa tarde. Me diga por favor: esse restaurante aí é frequentado por Jarbas?

 

- Jarbas?!

 

- Jarbas Vasconcelos, o senador.

 

- (Com pena do repórter) Hen-hen... Só se ele vem escondido, de madrugada. Eu passo o dia todinho aqui, sentada, olhando o movimento. A não ser que ele vá em outro. Mas pergunte aos empregados, eles sabem. O senhor é pastor?

 

Como não é comum evangélico de barbas grisalhas, imagino que a bondosa senhora me confunde com algum fundador de igreja nova. Nego a honra, agradeço e continuo. O garçom é meu guia.

 

Pergunto ao flanelinha por Jarbas, que Jarbas?, nada. Entro no  restaurante. E pergunto, como se uma resposta positiva fosse uma valorização, que me faria escolher o lugar para comer. É uma hora da tarde. 

 

- Jarbas Vasconcelos vem sempre aqui?

 

- O senador?! Olhe, faz muito tempo que não. Eu trabalho aqui há mais de um ano.

 

Nem lhe pergunto pelo garçom. Pois o felizardo deve ser, ou ter sido do concorrente. Ao próximo.  Pergunto ao flanelinha, nada. Pergunto ao colega do boa-vida, nada. Dirijo-me ao dono.

 

- Jarbas Vasconcelos vem sempre aqui?

 

- Antes ele vinha, há muito tempo. Quem veio agora foi Dilma.

 

- A ministra?

 

Confirma e manda me servir, sob protestos frágeis do repórter, um maravilhoso caldinho de peixe com uma cachaça curtida. Que peixe, que cana, que pena. Não posso viver na malandragem, e por isso tenho que ir até o próximo restaurante.

 

O próximo, onde se escondia o garçom, fica em local de acesso complicado, de caminho estreitíssimo, que exige bons pneus e perícia ao volante. Acredito que não fosse a esperteza de álcool acendida, eu teria voado sobre os arrecifes, rumo ao mar. Um caminhão de repente surgiu em uma curva sobre a pista estreita. Nós dois não poderíamos ali coexistir. Ora co, nem mesmo existir. Por isso joguei o carro à direita, para os lados da brisa do oceano. Mas o motorista súbito, com inesperada gentileza, desceu meio sobre uma encosta. Fui salvo. Para quê?

 

 - Jarbas Vasconcelos vem sempre aqui?

 

O garçom que não procuro sorri. Ou ele duvida de minha sanidade, ou das barbas mal postas, ou de minha cara de susto, que guarda a nítida lembrança da pista. Por onde tenho que voltar, com redobrada cautela. Então eu volto, vou até o próximo lugar que o senador Jarbas Vasconcelos frequenta há mais de 30 anos. Pergunto ao flanelinha, “Jarbas, etc., etc.?”. Acreditem, o flanelinha tem pena do repórter. Ele não me faz perder a esperança. Não me cobra nada pela vaga e sugere, com enorme educação e solidariedade, que eu vá aos garçons. “Aos colegas do bon vivant”, eu me digo, a esta altura suado e escolado. Que lugar agradável ! Eu não acredito que um homem troque o trabalho aqui por qualquer paraíso do lar, doce lar. Música suave, mpb, gente bonita, cheiro bom de todas as coisas, de crustáceos, com vista do mar, e aquele ar de distinção nos clientes, que os garçons sabem ser anúncio de gorjeta boa. Ele jamais poderia ter deixado este lugar. Mas o dever obriga:

 

- Jarbas Vasconcelos vem sempre aqui?

 

O gerente me olha, complacente, piedoso, e responde com um ar que pode significar “por que você não pergunta se aqui vêm o presidente Lula, Hugo Chávez e Obama?”.  Dá um toque na campainha para anunciar o prato pedido. Entendo. Por isso evito a visão das patas largas do guaiamum, abertas, convidativas, obscenas, e sigo até o próximo.

 

Devo dizer que a esta altura a raiva invadia o repórter. Estava começando a cansar dos restaurantes onde Jarbas ia há mais de 30 anos. Melhor dizendo: estava cansando de ir aos restaurantes de Brasília Teimosa onde Jarbas não punha os pés há mais de 10 anos. Perguntava a motoristas de táxi, a pedintes, a soldados da PM, a flanelinhas, a frentistas nos postos, a seguranças, a moradores vizinhos, a gerentes, até a mim mesmo, “Jarbas vem sempre etc.?”.

(Texto completo na revista Carta Capital nº  537)



Escrito por urariano às 22h33
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O arcebispo da Inquisição

 

Urariano Mota

 

 

Todo o mundo soube que Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife,  excomungou os médicos que praticaram um  aborto em uma criança de nove anos. Mas quase ninguém soube que o aborto não se fez onde a menina estivera internada, no IMIP, porque o arcebispo ameaçou romper o contrato que esse hospital mantém com a Santa Casa. De fato e de direito, para evitar a santa ira, os médicos cumpriram com o  dever na Maternidade da Encruzilhada, em outra terra e contrato.     

 

E mais não se disse, porque na notícia é comum a expulsão da história. Vê-se o fato – e peço perdão por não resistir à tentação do trocadilho – vê-se o feto, mas se esquecem os antecedentes. O arcebispo que ganhou o mundo há muito anunciou os seus sinais, quando assumiu a direção das almas católicas em Olinda e no Recife.

 

Pois Dom José Cardoso tem uma sombra. Ela se chama Dom Hélder Câmara. Há correspondências que ajudam a semelhança, que se casam nesse estranho conúbio e associação. A começar pela altura, física. Dom José Cardoso e Dom Hélder Câmara têm ambos a mesma estatura. À vista desarmada, dir-se-ia que os dois medem os mesmos 1 metro e 58, se muito. Ambos são nordestinos, Hélder, do Ceará, José, de Pernambuco. Ambos se encontraram na Arquidiocese de Olinda e Recife. Mas aqui terminam as semelhanças.

 

Nas diferenças, bem mais cresce a sombra que o ser atual na Arquidiocese. O vigor da sombra Dom Hélder Câmara é de tal monta que mais vale esclarecer quem é Dom José Cardoso Sobrinho. Vejamos o que dele dizem as suas ovelhas.

 

Das realizações do atual arcebispo, o jornal Igreja Nova, criado pelo Grupo de Leigos Católicos IGREJA NOVA, denuncia um desmonte implacável da Igreja semeada por Dom Hélder Câmara. Da posse em 15 de julho de 1985 até a condenação sem direito à defesa do padre João Carlos Santana da Costa, expulso da paróquia do bairro de Água Fria, a memória conta inúmeras perseguições e abusos.   

     

Em 2001 o Diário de Pernambuco publicou escândalo envolvendo imóveis da arquidiocese: o Dr. Rui João Marques em testamento havia deixado uma casa “para obras caritativas da paróquia” e um apartamento, “para formação de seminaristas verdadeiramente vocacionados”. A arquidiocese tomou conhecimento do legado em 1995, mas não tomou posse, e revendeu os imóveis a terceiros, sem respeitar a vontade do falecido.

 

Os paroquianos se revoltaram, reagiram, colocaram na imprensa, fizeram abaixo-assinado, mas nada conseguiram. O pároco, pressionado pela comunidade, requereu o valor do imóvel, onde pretendia fazer uma casa “para a educação de crianças pobres”, segundo a vontade do morto em testamento. Foi advertido pelo arcebispo, ameaçado de expulsão, a menos que assinasse um documento que havia recebido o dinheiro. Mesmo assim, meses depois foi expulso e saiu teoricamente como “ladrão”. 

 

E como melhor lembrou o Jornal Igreja Nova:

 

"Dom José Cardoso, o sucessor de Dom Hélder na Arquidiocese de Olinda e Recife, será lembrado como um senhor bispo, ou um bispo senhor, no sentido do procurador romano, ou como lídimo representante de uma hierarquia gendarme,  que executa, com o código de direito canônico na mão, as determinações do poder central. Como alguém que veio com a triste e árdua tarefa de desmontar e desfazer até nos alicerces o modelo de Igreja preconizado pelo Concílio Vaticano II e ensaiado por Dom Hélder". (Jornal Igreja Nova, http://www.igrejanova.jor.br/edabr00.htm)

 

Ou no mesmo jornal, nesta magnífica e santa passagem:

 

"No dia 6 de agosto de 2004, durante a concelebração eucarística de encerramento das festas do padroeiro de Olinda, São Salvador do Mundo, Dom Cardoso enviou recado à Prefeita de Olinda, Luciana: que ela se retirasse da fila da comunhão (que era a que ele distribuía), porque ela pertencia a um partido político ateu (Partido Comunista do Brasil). Ao mesmo tempo, numa atitude covarde, trocou sua fila com a de Dom Fernando Saburido (bispo Auxiliar)".

 

O arcebispo que excomunga médicos é o mesmo que condena, persegue e expulsa padres e freiras desde 1985. Expulsa sem direito à defesa dos condenados e perseguidos. Mas expulsar adultos por delito de consciência não é o mesmo que expulsar fetos. Quem expulsa homens salva o evangelho. Quem expulsa fetos comete um crime. Desde os tempos da Santa Inquisição.  

 

 

(Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/)



Escrito por urariano às 09h19
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