Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 La Insignia
 Nova Cultura
 Musibrasil
 Blog de Jesús Gómes, editor de La Insignia
 Samba-Choro
 Comunique-se
 Blog de Nei Duclós
 Blog de Ral, chargista, ilustrador
 Blog de Luis Nassif
 Canhoto da Paraíba
 Ivan Maurício
 Lilian Elphick
 Bodega Cultural
 Letras de Chile
 Alexandro Gurgel
 Outros Ventos
 Conexão Maringá
 Literatura Livre




Sapoti da Japaranduba
 


 

Sem-teto vira funcionário do Banco do Brasil

 

Urariano Mota

 

 

O título acima deveria estar nas manchetes de todos os jornais do Brasil. Aliás, pelas condições que cercam o personagem, deveria ser manchete em qualquer jornal do mundo.

 

Explicamos: chamar o personagem de sem-teto é não só dizer que ele dorme nas ruas, nas calçadas, todas as noites. E que passa o dia também por ali, tendo o céu por cobertura e limite. No caso de quem falamos, é dizer também que ele não tem sequer uma escova de dentes. Que come hoje, se hoje significa de segunda a sexta-feira, e ainda assim, se esse hoje significa a hora da merenda escolar. Que vive, maneira de dizer, pois ele anda, defeca e fala, que “vive” com renda de 60 reais POR MÊS, ou, fortuna das fortunas, 150 reais, se estivermos naquele período em que todos somos solidários, cristãos e sensíveis, nos dezembros de cada ano. Que dorme nas ruas não bem por, digamos, opção existencial, política ou filosófica. E que disso temos certeza, porque em noite de chuva e frio, na última quarta-feira, com as pernas encolhidas, perguntou: “Você acha que eu não queria estar numa cama agora?”.   

 

No entanto, com esse currículo resumido, que o levaria para o crime, digo, até, se o comparamos aos exemplos da elite bem nutrida, que daria a seus crimes pequenos e miseráveis a mais absoluta legitimidade, no entanto, acreditem. Esse personagem acaba de passar no último concurso do Banco do Brasil. Para ser mais preciso, na seleção externa 2007/002, com o número de inscrição 10.279.392, entre 19 mil candidatos, ele obteve a 136ª. classificação. Mas como isso é possível? Como é que jovens de classe média tentam passar nesse difícil concurso, não conseguem, e um... um sei lá, vai e  passa? Esse cara existe mesmo?  

 

O leitor já notou que até aqui não mencionei o nome do personagem. Simples a razão. Ele é um dos invisíveis do Brasil. Ele é uma daquelas ... pessoas? que dormem ao relento, à margem, semelhante em seu invisível aos trabalhadores braçais de uniforme, de quem não sabemos nem queremos saber o nome. Nós, que somos pessoas, como em uma nova casta retiramos a humanidade de quem não está em nossa classe. Nós, que comemos, habitamos, vestimos, estudamos, nós, os cidadãos – e ninguém mais será cidadão do que nós – somos o mundo. Os outros, quando aparecem, vêm apenas como uma ameaça, de assalto, como ratos.   Pois bem. Não fosse a sensibilidade, o faro do repórter Fred Figueiroa, do Diário de Pernambuco, esse personagem continuaria fora de nossa vista.  Ou como ele próprio declara, o personagem: "Estou aqui nessa esquina todas as noites. Ninguém vem aqui falar comigo. Você veio para me entrevistar. Mas você já tinha sequer me visto aqui?". Isso está na reportagem, transcrita no blog do repórter, http://fredfigueiroa2.blogspot.com/

 

Então chegamos ao fim, com a informação que deveria estar lá no título, desse personagem que tem 27 anos, que reside em casa nenhuma, com uma história digna de Andersen.  O seu nome e a sua pessoa atendem pelo nome de Ubirajara Gomes da Silva. Ou pelo perfil que criou no Orkut, quando entra na Internet gratuita: Maior Abandonado. Com a cara do vagabundo Chaplin.

 

 

(Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/) 

 



Escrito por urariano às 22h20
[] [envie esta mensagem
] []





Fotos de Marco Albertim

 

Valmir Jordão, poesia viva do Recife

 

Urariano Mota

 

 

“Tropecei, caí na rua,

ao tentar pegar,

com as mãos, a lua”.

 

 

O poeta Valmir Jordão sempre surpreende. De repente, ele pode aparecer com a cabeça rapada, de chapéu e óculos escuros e não será bem uma nova performance. Será um novo personagem, um heterônimo vivo, porque não quer ser um poeta morto. E mostrará, como explicação, seis marcas de bala no corpo, nada fictícias. Lembranças de um antigo atentado, de sua luta pela cidadania. Em outra oportunidade, chegará zen, calmo, ser surgido na fumaça do Recife. Em uma terceira oportunidade estará deprimido, amargo. E a causa da tristeza não será bem filosófica, mas a nada poética razão de não ter onde morar. Que não assobia como um samba de Caymmi.

 

Onde mora? Como vive? Não lhe façam perguntas assim, objetivas, necessárias, porque ele responderá, de passagem e de raspão, que mora aqui, ali, mas que no momento está de volta à casa de sua mãe, no grande Recife, lá em Jaboatão. O bom filho, quando pronto, retorna. Mas do quê mesmo o poeta vive? Valmir bem sabe o absurdo que é responder, “vivo de poesia”. Por isso, quando cercado, responde:   

 

- Faço oficinas de literatura, como agora.

 

- Mas você não tem isso os 12 meses do ano. Nem tem décimo terceiro, nem férias.

 

- Não, não.  Eu sou muito cigarra, mas tenho um lado formiga também. Eu guardo um pouquinho. Canto, e deposito uma parte desse canto, um terço. E me mantenho com o restante. 

 

Há quem o chame de poeta marginal. Mas este homem, que olho agora, é autor de um poema que hoje corre mundo, tão antológico que virou quase domínio público, “Coca para os ricos / Cola para os pobres / Coca-Cola é isso aí”. E autor, também, além dos magníficos versos lá em cima, que tão eloqüente falam do seu modo de ser e estar, de poemas que falam não dos marginalizados, mas como um próprio marginalizado, de consciência poética. Como este aqui, por exemplo:

 

AH, RECIFE

Dizem os bardos que uma cidade
é feita
de homens,
com várias mãos
e
o sentimento do mundo.

Assim Recife nasceu no cais
de um azul marinho e celestial,
onde suas artérias evocam:

Aurora, Saudade, Concórdia,
Soledade,
União, Prazeres, Alegria e Glória.

Mas nos deixa no chão,
atolados na lama
de sua indiferença aluviônica:

a ver navios com suas hordas
invasoras
e o Atlântico
como possibilidade
de saída...

“Esse tipo de poesia a geração de 1965 não fazia”, esclarece Lara, um poeta e crítico do grupo. “Porque a gente ligou para o visceral, e o engajado da esquerda, mas não com panfletarismo, não calcado na ortodoxia marxista. A gente se propunha a ir além da ortodoxia marxista. Tinha anarquista, tinha ...esse lado visceral muito forte, de expor as tripas da realidade concreta, de fazer o combate ideológico, anticapitalista”.

Pode-se dizer que Valmir Jordão vem de uma geração de poetas urbanos, radicais no seu fazer poético, que fazem da poesia morte, vida e profissão. Mas sem idéias orgânicas de um movimento. Características comuns de vida têm, é certo. A maioria é de origem pobre, todos autodidatas. (Mas afinal em que escola os escritores no mundo se formam?) São, por baixo, mais de 50 poetas, que se apresentam em palcos, em shows, em recitais. Os seus poemas estão em edições pequenas, de tiragens pequenas, de circulação pequena, de preço pequeno. Diferente dos grandes, eles são todos filhos de má família, um eufemismo que apenas quer dizer, como Valmir disse em MATER: “Não culpe as putas / pelo comportamento / nefasto dos filhos”. Chega a ser de uma grande brutalidade essa poética.

Em 2007, no intervalo de poucos meses faleceram dois poetas-símbolo do grupo, Chico Espinhara e Erickson Luna. O intervalo dos seus óbitos foi curto e eloqüente. Chico, em fevereiro de 2007, Erickson em abril de 2007. Dois meses entre um e outro. De males diferentes, mas de gênese única. Ambos poetas cujo estilo de vida, de aparência romântica, foi antes uma autodestruição pelo álcool e por outras drogas que não atingiram o veneno da legalidade. No começo de outubro do mesmo ano, faleceu o terceiro, o poeta França.

 

Acontecimentos assim não abalam, no sentido de que venha a desistir da poesia, o poeta Valmir Jordão. Pelo contrário, o que mais me surpreende, desta vez, é a crença absoluta que ele possui nos frutos e destino da literatura. Apesar de todas as adversidades. Como aqui, neste trecho:

 

“Eu não faço livro só pra vender. É o seguinte: a literatura pra mim é um caminho. Não é um fim de ganhar dinheiro, sabe? Nem meio de ganhar dinheiro. Pra mim ela é um instrumento de trabalho, que eu adoro fazer, que eu amo fazer. Agora, essa história do toma lá, dá cá, existe, sim, porque você recebe muito carinho, muita gentileza, e um livro não paga uma gentileza. Nem há dinheiro que pague uma gentileza, entendeu?”.

 

Que força penitente é essa? Entendam melhor o que isso significa: escrever poemas em caderno, à mão, porque não tem micro, ainda que alegue ser melhor assim, porque sua memória é táctil. Depois, copiá-los em um CD, em uma Lan House, para levar a uma gráfica. E finalmente vendê-los ao mundo na própria voz e na página impressa. Uma poesia, enfim, que vem ao mundo nas piores condições materiais, ou como ele diz, “materialmente, nada próprio”.

 

O poeta agora tem 47 anos. Apesar da estatura, um pouco abaixo da média, apesar da falta de armas físicas, é um homem de absoluta coragem artística. Quem o vê assim, não imagina uma conversa que teve com um criminoso. Ele havia emprestado 50 reais ao delinqüente, e ao cobrar o pagamento da dívida, recebeu a resposta:

 

- Não enche o saco, cara !

 

Ao que ele, Valmir Jordão, esse homenzinho convicto da sua singular diferença, respondeu:

 

- Escuta aqui. Tu estás pensando que só porque tu és bandido, eu tenho medo, é? Eu sou artista, cara. Eu sou poeta, cara, tás entendendo?   

 

No enterro de França, enquanto outros choravam, Valmir se acercou do caixão e, de frente para o poeta negro, fez um recital. Somente para França. Em voz alta, como se conversasse na melhor língua que sabe fazer, poesia. Um monólogo cuja força era um diálogo, possível, impossível, real e imaginário.  Ali o poeta falou para França da radical opção de suas vidas, na certeza de que razões de viver também são razões de morrer.

 

Um homem assim tem que ser respeitado. É uma luz, ainda que se apresente sem grana, sem dinheiro às vezes nem para o ônibus. Mesmo que tenhamos medo do que venha a falar de nossa pessoa, quando dele nos separarmos:

 

METAFÍSICO

Na saída dum chato,
é que percebe-se
a presença de espírito”.

 



Escrito por urariano às 12h59
[] [envie esta mensagem
] []





 

CADERNOS DE CLASSIFICADOS

 

Urariano Mota

 

 

Nos jornais existe uma seção, um caderno que reflete melhor a sociedade que as notícias da primeira página. Os anúncios classificados, que se publicam ao fim das edições, revelam sempre uma pista segura de como age e anda o mundo. Diferentemente da primeira página, que se faz ao gosto de quem organiza e hierarquiza os fatos de todos os dias, os anúncios  publicados lá no último caderno se fazem conforme a gente da cidade, que em linhazinhas breves, em espaços curtos fala. Ali, quase toda a gente pede, oferece e propõe do jeito que as coisas e as pessoas são, ou melhor, revela-se no como gostaria  que coisas e pessoas fossem. Numa palavra, compra-se, ou vende-se, conforme a natureza dessa gente.

 

O passar das páginas dos classificados são como o movimento de um avião que não levantasse vôo sobre a cidade, como um carro com asas que visse o conjunto de habitações sem que fosse preciso subir. Como o passar de carro por uma cidadezinha muito especial, lugar onde se mostram casas de todas as cores, tamanhos e arquitetura. O mais engraçado, nessa cidade entrevista, é o corte bruto, sem consideração ou piedade para o sofrimento ou a alegria.  É a passagem sem transição da mercadoria para o afeto da gente. Ali é o lugar de uma feira original, uma feira de tudo. Da mulher de que se necessita ao telefone que se vende. Do transplante de fígado, urgente, ao coração exposto,  nu, sem pudor à luz do dia. Do engraçado, do cômico, ao Correio Sentimental na seção de Serviços Profissionais, vindo logo antes do Esoterismo/Místicos.  Nessa feira vai-se da tragédia ao prosaísmo, entra-se no amor e sai-se no eletrodomésticos, porque no espírito da página quem manda é a ordem alfabética. Os Produtos Gráficos se  acham ao lado das Massagistas, ainda que estas não façam tatuagens, e os Telefones se  vendem junto ao Som/Vídeo, mesmo que toquem uma só canção, mecânica.

 

Imaginem os leitores de hoje o mundo daqui a cem anos. Imaginem a humanidade, se existir, daqui a cento e cinqüenta anos. Então imaginem nossos descendentes, se vivos forem, imaginem se eles poderão entender os hábitos que éramos, se lhes mostrarem a primeira página dos jornais de hoje. “Popularidade de Bush cai”. Nossos futuros, se houver, perguntarão, quem foi mesmo esse vegetal pequeno que se apelidava de Bush? Imaginem agora o leitor que nos sucederá nesses futuros anos ao ler estas linhas:

 

“PROCURO HOMEM – Sem compromisso, 38 a 45 anos, que ainda acredite no amor. ”.

 

Haverá linha mais eloqüente que expresse, a nossos pósteros, que em 2008 houve uma vez uma mulher sozinha, sofrida, que procurava alguém que AINDA acreditasse no amor? O advérbio aí é mais substancioso que nossa transformação em pó. AINDA. Isso dirá que essa mulher já sofrera, já se magoara muitas vezes, mas que era possuída pela humanidade, que não desertara da esperança. E nos compreenderão, se viverem, se lerem, quando lerem:

 

“TENHO 50 anos. Solteira, nível superior. Procuro pessoa livre, nível superior, de bons sentimentos, de 50 a 55 anos e acredite no amor, que tenha mente aberta e esteja também à procura de alguém para sincera amizade ou algo mais. Caixa Postal....”. Não importa se o anúncio quer o difícil, o quase impossível. Se quer um homem de 55 anos que não esteja casado, que não esteja farto de tudo, que assim não estando procure a mulher ideal, e para algo mais que a amizade. Não importa. Pois não houve uma vez um professor em Água Fria que aos 65 anos ainda buscava a namorada de infância? Então é possível.

 

Em nome da inteligência dos que nos vêm depois, nem precisamos comentar os classificados que se seguem. Eles falam por si, das taras, dos tempos e das transgressões. “Casada infiel. Ligue e confira!”. “Menina linda, rostinho de anjo e sorriso encantador. Uma colegial superdanada! Para maiores de 40...”. “Bruna - bela travesti brozeada para executivos”. “Tia & Sobrinha – Safadas e fogosas!”....   E como possível cura às frustrações dessas fantasias, uma nova, de certeiro homeopata: “Alberto – Resolve problemas amorosos.”

 

Os anúncios classificados, por serem comerciais, e porque vendem mercadorias, bem que poderiam ser lidos como um espelho invertido de desejos. De casas, de carros, de apartamentos, de objetos, de emprego, de sexo e de amor. De sonhos, de altos e baixos sonhos, do sublime e de quinquilharias. Feira da selva que legamos.

 

 

(Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3950)

 

 

 



Escrito por urariano às 10h26
[] [envie esta mensagem
] []





 

NO AR, A LITERATURA

 

Urariano Mota

 

 

No começo de nossa reunião, percebemos que para o nosso programa faltavam somente o Nome, Vinheta, Slogans, Chamadas, Conteúdo. Somente isso, não faltava mais nada.

 

O nome era fácil. Era importante que ele aliasse a cultura de Pernambuco a um conteúdo de literatura. Simples, não? Depois de duas horas à procura de um nome, anotamos: Vou danado pra Pernambuco, “Danou-se, é literatura”, Céu de letras, 30 copos de chope, “Literatura, ocupa o teu posto”, Arrecife das Letras, Bar Savoy, A palavra fala, No passo das letras, A palavra, Hora literária, Canto das letras, Encanto das letras, “Letras, palavras, folhas e livros”, Pernambucanto, Pernambuco das letras, Ondas de letras, e antes que alguém pensasse em Letras radioativas, paramos. Céu de letras sumiu, caiu por gravidade e morreu, sem nenhuma lágrima. Bar Savoy não podia ser porque o dono, o português, ia cobrar pelo uso do nome. E por isso achamos menos ruim o “No passo das letras”, porque o passo é a dança do frevo, e paço, com cedilha, é palácio.

 

Achado o nome, a vinheta seria mais fácil ainda, porque ela ia casar certinho com o programa. Por isso, acertamos que o ideal seria um frevo, e se possível, e coubesse, um som de maracatu de baque virado. Daí que ficamos nisso, de tão fácil, e para isso deveríamos procurar a fácil solução para depois da reunião. Daí que eu, por minha conta e risco, pesquisei em casa e descobri que nada mais próprio que o solo de Felinho, somente o trecho do solo, na sua primeira aparição e penúltima, em Vassourinhas. Só o sax de Felinho.

 

Com a vinheta, pensamos nas chamadas, no slogan. Era fundamental que se expressasse uma coisa rara nesse programa, e que se anunciasse a seguinte novidade: essa era a primeira vez que um programa de literatura, no rádio, não bastasse tamanha raridade, era feito por escritores. Até então tivemos jornalistas, professores, comunicadores falando sobre escritores ou sobre literatura, isso quando falavam. Desta vez, não. Daí que amadurecemos e fomos para as seguintes palavras: “A literatura mostrada por quem faz”, ou então, “Um programa de literatura por quem faz literatura”. Ou ainda: “No passo da literatura. Um programa de escritores”. A que poderíamos acrescentar, em uma pausa de Felinho no sax: “A literatura de hoje, de nossa terra, para todas as terras”.

 

O conteúdo então, dissemos nós, é mais fácil ainda. A razão? Todos sabemos o que queremos, e como sabemos o que queremos, nem precisamos pensar muito. É só anotar. Cai do céu. Então, após alguma discussão e dispersões para um tema tão fácil, conseguimos algum consenso, uma bandeira comum: o conteúdo tem que ser gostoso e sério. Ótimo. E mais: que mexa com corações e mentes, expressão que alguma vez ouvimos em algum lugar. Daí pensamos que devíamos divulgar os CDs dos poetas locais, como atrações e pausas na falação. Divulgar recitais, palestras, eventos. Os sites e blogs da cena literária. É interessante observar – anotamos com muita ênfase - que teremos de ligar a poesia e a prosa de hoje à prosa e poesia dos nossos clássicos. Isso entra como uma formação de gosto do ouvinte. É como uma homenagem e uma filiação do que fazemos ao que de melhor se fez antes. Crônicas de Antonio Maria, de Dom Hélder, de Renato Campos, de Hermilo Borba Filho, de Manuel Bandeira. Leituras e gravações de poemas de João Cabral, de Carlos Pena, de Joaquim Cardozo, de Mauro Mota. 

 

De um ponto vista físico, técnico, de tempo, o programa será semanal, de uma hora, dividido em 3 blocos. Sábados às 5 da tarde, ou sextas-feiras, à tarde. Nunca aos domingos. E acordamos por fim que o primeiro programa será todo dedicado ao poeta Alberto da Cunha Melo.        

 

Seria. Com tão bons propósitos e ideais, esse programa jamais entrou no ar.

 

 

(No Direto da Redação em http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3936)



Escrito por urariano às 10h12
[] [envie esta mensagem
] []





Para Carlinhos Bala

                                                Um craque na torcida

 

Urariano Mota

 

 

O jogo do Sport contra o Vasco, daqui a pouco em São Januário, me faz lembrar que o  melhor lugar, para eu defender o glorioso Sport Club do Recife, é na torcida. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu poderia ser jogador de futebol.

 

Em 1958, quando o Brasil foi campeão na Suécia, ganhei de presente uma bola de borracha. Na minha vizinhança, todos os meninos jogávamos então com bola de meia. Por isso orgulhoso me dirigi para a rua. Nesse dia eu era a própria seleção, mais que Didi, Pelé, Vavá, aqueles que bailaram lá na Europa, porque eu era esse grau supremo, acredito que em todas as nações do planeta, a maior autoridade e espetáculo, o dono da bola.

 

Os meninos me cercaram, lembro bem. E eu, em lugar de abarcar sozinho o troféu, orgulhoso, dizia-lhes, olhem, e eles, com sede, mais que olhavam, executavam malabarismos com a minha bola, para me assegurar, aduladores, que bola como aquela no mundo inteiro não havia. Eu acreditava, diria mesmo, todos acreditávamos, até mesmo os pérfidos aduladores. Bola e dono da bola, como nós, no mundo inteiro não havia. Disso vocês também terão a certeza. O fato é que, terminada a corte, para melhor encantamento, decidimos jogar. Sim, para que desejávamos uma bola? Para exibi-la e recolhê-la depois? Definitivamente não.

 

Pois bem, resolvemos jogar. Era um costume então entre os meninos, não sei se perdura até hoje, o que chamávamos de “tirar o time”. Ou seja, os líderes naturais dos meninos, que podiam ser os melhores jogadores, ou os mais ricos, os menos miseráveis, os mais fortes, ou os mais valentes, escolhiam aqueles que iriam jogar em seu time. Assim estabelecidos, os líderes escolhiam, com um risco no chão, na terra do campo, os dois times, com a frase, com o mantra:

 

- Esse é meu.

- Esse é  teu....

 

Quando ocorria de um bom jogador ser disputado por ambos os líderes, oferecia-se um menino ruim, como um jogador a mais ao time que ficava sem um Pelé. Compensavam.

 

- Nego.

- Nego é meu!

- Você pode ficar com Dirico a mais.

- Essa ruindade eu não quero.

- Dirico é ruim, é? Ele sabe marcar, ele não deixa ninguém jogar.

- Então fica com ele!

- Tu só pensa em ganhar.... Pode vir, Dirico.      

 

Os excluídos, assim incluídos, faziam ponto de honra em transformar a sua desonrosa escalação em vitória do time que o abrigava. De preferência, derrubando, de todas as formas e maneiras, o Nego. Mas como eu não me chamava Dirico, porque eu era o titular absoluto da seleção nesse dia, deixei-me acompanhar sonolento, entediado, a escalação dos dois grandes times:

 

 - Esse é meu...

-  Esse é teu...

- Pronto. Vamos jogar.

 

Então eu, o sonolento, ainda meio tonto, acordei.

 

- E eu? Em que time eu jogo?  

 

Então o mais sábio, o mais inteligente e sabido líder, com ar de negociador norte-americano em terras de petróleo, me disse, com voz terna, aveludada e conciliadora:

 

- Depois. Isto de agora é só um treino. No jogo mesmo tu entra.

 

Então jogaram. E eu, que não era Dirico, porque de maneira nenhuma poderia ser oferecido como uma compensação, naquele augusta hora, durante bons 60 minutos, assisti ao treino do jogo que viria. E como tudo tem um fim, para desgraça ou graça o treino acabou. E desta vez foi a minha vez de me acercar dos líderes:

 

- Agora vamos jogar.

- Olha, já é meio-dia. Amanhã tem mais. Vamos, turma?

 

E me devolveram o troféu, o meu presente, a minha bola. Honestos, na devolução. Ficamos então a mirar, sem acreditar no que víamos, sentados no chão para não cair, eu e a minha bola. Por isso digo e escrevo, sem muito orgulho, que a César o que é de César, e a Tostão o que é de Tostão. Porque nesse particular de jogo sem bola, em 1958 eu sou e fui o pioneiro, por me antecipar ao craque no México em 1970. Ninguém, nenhum dono da bola jamais jogou sem bola como este que lhes fala.

                                                                                              

Somente espero que na torcida hoje eu tenha melhor pé-quente.

 

 

 (Escrito e publicado antes do jogo, em 28.5.2008,  no Direto da Redação http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3926 . O que não consegui em campo, consegui na torcida: Sport 5 X Vasco 4, nos pênaltis)



Escrito por urariano às 11h50
[] [envie esta mensagem
] []





 

Avião atinge prédio em São Paulo

 

Urariano Mota

 

 

Para seguir a mais recente moda no jornalismo, a coluna de hoje será escrita com o revolucionário método do Ctrl + C e Ctrl + V, mais conhecido pelo nome de copia e cola. A começar já pelo título, aí em cima, da “notícia” de 20 de maio de 2008. Ao serviço.  

 

A Globonews, canal pago de notícias da Globo, informou nesta terça-feira que um avião da companhia Pantanal caiu em um prédio comercial da zona sul de São Paulo. A emissora entrou ao vivo com imagens de um incêndio em São Paulo, informando que a causa era a queda de um avião.

 

"Interrompemos a transmissão", entrou o locutor da Globo News, "acaba de chegar a informação de que um avião da empresa aérea Pantanal caiu em cima de um prédio comercial". A notícia repercutiu em todos os lugares, inclusive nas agências Reuters e France Presse despachando para o mundo: "Segundo a rede local TV Globo, um avião se chocou com prédio". Foi parar no britânico Sky News e na CNN, que cortou sua transmissão para o mundo com "Breaking News" sobre a queda do avião em São Paulo.

 

Minutos após a notícia da Globonews, a Pantanal divulgou um comunicado negando o fato, que também foi desmentido pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e pelo Corpo de Bombeiros.

O canal pago, após cerca de cinco minutos de transmissão ao vivo, passou a informar que o incêndio ocorrera em uma fábrica de colchões e que não havia vítimas. A emissora não informou a origem do erro, mas se justificou:

"A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a Globo News, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões.

Central Globo de Comunicação"

Em seguida, a notícia sobre o local do incêndio foi mais uma vez reformulada, para a versão final de que se tratava, de fato, de uma loja de tapetes.

 

Suspendemos agora o Ctrl + C e Ctrl +V, para extrair dos fatos três coisas.

Coisa 1:  observem a gradação de tamanho dos fenômenos. Primeiro, era um avião a se chocar com um edifício, um prédio – seria a nossa versão de um choque em torres gêmeas? Depois, não era bem um avião, era algo, que deixou de existir. Depois, não era um prédio, era uma casa, uma loja de colchões. Depois, ao fim, continuava a ser uma loja (alguma dúvida?), mas de tapetes. Das mil e uma noites, talvez. Dos que voam.

Coisa 2: notem que a Globo News apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. Leram bem: apurou! E como havia bem apurado, o locutor, em seu padrão globo de qualidade, via e narrava um avião entre as chamas. Mas naquele momento,  bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. Incompetentes, os bombeiros e Infraero. A Globo News tinha. E furou, a realidade.

Coisa 3: a lembrança de Mark Twain. Diante das manchetes que anunciavam o seu falecimento, ele convocou os repórteres e lhes disse. E faço pela última vez o Ctrl+ C e Ctrl + V.: “As suas notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas”.

Fim do Ctrl+ C e Ctrl + V. Essa frase é minha.

 Também no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3916



Escrito por urariano às 13h59
[] [envie esta mensagem
] []





 

                                                                         

                         

                                         O prêmio de Paulinho da Viola

 

Urariano Mota

 

 

As notícias da imprensa que mostram Paulinho da Viola como o grande favorito do Prêmio Tim deste ano, com 7 indicações, longe estão de um exagero ou de conta de mentiroso. O  disco “Acústico MTV”, que acena para ele com sete categorias de prêmio, eu já ouvi tanto, nos últimos 6 meses, que sei o repertório inteiro, as deixas, o coro (ali está Cristina Buarque), os créditos e todas as imagens, ainda que não o tenha agora para ver e ouvir.

 

Essa consagração somente para os que são ruins da cabeça ou doentes do pé causa espanto. Para nós, que o acompanhamos desde 1970, ocorre perguntar, “por que demorou tanto?”. E para ser gentil ante a longuíssima letargia, preferimos recuperamos aqui algumas linhas do escrito sobre ele há cinco anos.     

 

Paulinho da Viola é uma soma de gerações de compositores da velha guarda do samba. Uma reencarnação de sambistas que se foram, se por reencarnação compreendemos as folhas secas que ressurgem no verde, folhas secas que se fizessem azuis, vermelhas,brancas, negras, e se por reencarnação compreendemos as gerações que voltam reiventadas, algo como um 1920 mudado em 2020, como um 12 mudado para um certo 21, ou: como se Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Batista, Nelson Sargento, Candeia, sem deixarem de ser eles  mesmos  fossem um outro, que vem a ser um compositor nascido hoje. Uma alma dessa gente renascida.

 

Mas falar de um compositor de música somente com palavras não é fala precisa, seta na mosca. Porque dizer que ele faz de composições da Velha Guarda composições suas, ou dizer que ele busca na Velha Guarda a própria voz cantada antes, não seria claro e preciso para quem simplesmente nos lê sem a experiência e a felicidade da música de Paulinho. Façamos então um pacto com o mais simples: falemos do tempo de Paulinho da Viola refletido em instantes  de 2 linhas de  nossa vida mesma.

 

Quando surgiu “Foi um rio que passou em minha vida”, éramos estudantes numa  sexta-feira à noite, numa serenata em Maria Farinha. Achávamos então que a revolução socialista seria a coisa mais natural do mundo. E por ser assim tão natural, nada demais também que ouvíssemos, não se espantem, 41 vezes, seguidas, contínua e incansavelmente foi um rio, foi um rio, foi um rio...  . Naquele ano, todos nós éramos Paulinho, nessa estranha empatia, mistura de identidades que a verdadeira arte produz. Todos nós repetíamos, “meu coração tem mania de amor, e amor não é fácil de achar”. À maneira de cantar, gritávamos esses versos então.

 

Depois, morando na Pensão Princesa Isabel, Paulinho era Simplesmente Maria. “Na cidade, é a vida cheia de surpresa, é a ida e a vinda, simplesmente,  Maria, Maria, teu  filho está  sorrindo, faz dele  a tua ida, teu consolo e teu  destino, Maria...”. Nesse tempo, sempre  compreendíamos o “faz dele a tua ida” como um “faz dele a tua ira”. Enquanto subíamos a escada para um quartinho isolado no alto, da televisão da sala vinha a música. À hora dessa música sempre esperávamos algum golpe traiçoeiro da polícia que queria nos matar.

 

Então houve Para um amor no Recife. Entre a repressão da ditadura Médici e a resistência erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: “A razão porque mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você ”.

 

Que sorte imensa a nossa ter sobrevivido aos piores temporais para viver a maturidade de Paulinho. O que ele anunciava num Samba Curto, “só me resta seguir rumo ao futuro, certo do meu coração mais puro”, é agora atingido. Menos puro que o esperado, como é bom esse coração amadurecido pelo crisol, pela lembrança de quando o tínhamos somente dor. O grande prêmio de Paulinho da Viola é o tempo. Com ele e com todos nós.

 

 

Também no Direto da Redação em http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3907



Escrito por urariano às 16h46
[] [envie esta mensagem
] []





 

O poeta que Boldrin não viu

 

Urariano Mota

 

 

Em outubro de 2007, ao trabalhar em uma antologia de poesia popular do sertão do Pajeú, descobri um senhor poeta. Adjetivo o substantivo poeta com “senhor” para atender à sua idade e também para não escrever “grande”. Grande é Dante, ensinava Manuel Bandeira. Na verdade, sendo mais preciso, descobri um belo e viçoso poema, com a mesma beleza das coisas da terra e com o viço do leite materno. Tão encantado fiquei com o tesouro, que me disse: esse homem deveria ser conhecido além de nossas fronteiras. E por isso pensei no Sr. Brasil, o programa criado à imagem e semelhança de um senhor ator, Rolando Boldrin.

 

Em 15.10.007 então, envie-lhe esta mensagem:

 

“Prezado Rolando Boldrin

 

Sou Urariano Mota, escritor e jornalista. No momento organizo, com mais três outros escritores, uma Antologia dos Poetas do Pajeú. O Pajeú é uma área do sertão de Pernambuco, berço de inúmeros poetas, cantadores e repentistas. 

Aconselhado, envio-lhe o poema  a seguir. Sem dúvida, você é a pessoa certa, pelas qualidades de ator e conhecedor da gente brasileira. Passo-lhe os breves dados do poeta e o poema. Você verá que Dickens, na Inglaterra, não escreveria com mais força”. 

 

E lhe passei primeiro a brevíssima apresentação do senhor poeta Antônio José de Lira:   

Nasceu no Sítio Goiana, Município de Itapetim, Pernambuco, em 8 de julho de 1930. Não é cantador de profissão, mas agricultor. Faz uma poesia universal, belíssima, como  “A Velha Olaria”,  uma recordação da olaria do seu pai, no Sítio Goiana”.

Depois acrescentei o poema, o leite materno, os versos que me lembravam Dickens em As Grandes Esperanças, quando o protagonista volta ao casarão arruinado onde conhecera o seu amor de infância. Mas nenhuma resposta veio, até hoje. Está certo, quero dizer, bem entendo que o apresentador e homem de teatro receba solicitações de todos os cantos, e mal consiga ler a décima parte. O dia só tem 24 horas e as tarefas são muitas, compreendo. Porém mais certo é que eu não devia ficar com essa jóia de beleza guardada.  Nem mesmo o livro onde apareceria o seu poema ainda não veio à luz. Portanto, a consciência obriga a divulgação. Quem sabe se a partir de Miami, via Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, o Brasil venha a conhecer este encanto. Com vocês

 

A VELHA OLARIA

 

Recordei o juazeiro

Sombra da velha olaria

Gigante, verde e faceiro

Enquanto o dono existia

Depois que o dono morreu

Ele também resolveu

Se entregar ao machado

Hoje nenhum mais existe

Vou recordar mas é triste

Se recordar o passado

 

O tempo ingrato passou

A mão naquela olaria

Por lembrança não ficou

Nada do que nela havia

Aterrou todo o barreiro

Sem forno e sem juazeiro

Ficou o chão diferente

Até mesmo o passarinho

Perdeu o lugar do ninho

Canta mas não é contente

 

Das telhas restam os cacos

Porque não se derreteram

Do juazeiro os cavacos

Todos desapareceram

Se existe alguma raiz

Talvez se sinta infeliz

Porque perdeu sua fronde

A lenha o fogo queimou

As folhas o vento levou

Pra guardar quem sabe aonde


Senti profunda emoção

Naquele ermo esquisito

Sem pai, sem mãe, sem jargão

Sentindo a falta do mito

Se dividiu a família

Três hoje moram em Brasília

E três em Itapetim

Quatro na eternidade

Resta somente a saudade

Morando dentro de mim

 

Voltei pra ver se do forno

Alguma coisa restava

Pelo menos o chão morno

Da lenha que pai queimava

Não vi cinzas nem carvão

Senti profunda emoção

Saí sem olhar pra trás

Notei que tudo tem fim

Jurei por Deus e por mim

Não ir ali nunca mais

 

 

Publicado no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=3894

 



Escrito por urariano às 20h13
[] [envie esta mensagem
] []





O gênio do violão brasileiro acaba de falecer. Escrevi para ele esta oração em junho de 2004. Mas, é claro, Nossa Senhora não ouviu.

 

 

 

ORAÇÃO POR  CHICO SOARES, CANHOTO  DA  PARAÍBA

 

Urariano  Mota

 

 

(Fecho os olhos, para melhor falar. Abro e ergo os olhos para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isso mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)

 

Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mostrai  que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

 

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.

 

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo, um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos. Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada. (É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?) Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:

 

O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado desta referência, ao ser encontrado na Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:

 

- Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”

 

E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz, como uma criança que se descobre nua em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:

 

- Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.

 

E desta maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto, a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente. Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade de sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar essas desrazões:

 

Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a  Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro:  

 

Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma... terapia. Não essa terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isto, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isto já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disto ele não se queixa – está em repouso, não é? Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será!  Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação.     

 

Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia de sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo, e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser  - da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba ... nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do  estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste  ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente.

 

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade  humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que  jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.